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5 DE JULHO DE 2004
Entrevista com Roland Chemama


Cada palavra pronunciada transita sobre um fundo cultural, e nele intervém. Por isso o analista deve ter condições de relacionar o discurso do paciente com os vários discursos sociais. Se ele não for suficientemente culto, relativamente imune ao esfacelamento dos saberes e fechar-se nos limites de uma disciplina universitária, não conseguirá desvelar as questões que afloram, nem poderá oferecer a cura, a possibilidade do paciente tornar-se menos dependente e menos submisso ao Outro, a partir do qual ele se define. Dessa forma o psicanalista francês Roland Chemama aborda alguns dos desafios contemporâneos da psicanálise, em entrevista por e-mail ao IHU On-Line. Roland Chemama, integra, desde sua fundação, a Association Freudienne Internationale, que a partir de 2001 passou a chamar-se Association Lacanienne Internationale. O professor também foi membro da École Freudienne de Paris, fundada por Jacques Lacan, até sua dissolução. Coordenou a redação do Dictionnaire de la psychanalyse (Larousse, 1993 e 1998. Publicado no Brasil sob o título Dicionário de Psicanálise; tradução de Francisco Franke Settineri. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995) e, desde 1992, vem desenvolvendo seu trabalho junto a psicanalistas e suas instituições no Brasil. É autor também de La psychanalyse, textes essentiels (Larousse 1993), e Eléments lacaniens pour une psychanalyse au quotidien (Editions de l’Association freudienne internationale, 1994, também publicado em português com o título Elementos lacanianos para uma psicanálise no cotidiano. Porto Alegre: CMC Editora, 2003). Roland Chemama foi entrevistado por IHU On-Line na edição n.º 41, de 4 de novembro de 2002, por ocasião de sua vinda à Unisinos, quando ministrou a palestra O discurso da ciência e as novas formas de expressão religiosa.

IHU On-Line – Quais os desafios mais importantes da psicanálise hoje?
Roland Chemama – O indivíduo contemporâneo é, sem dúvida, bastante diferente daquele que Freud pôde conhecer. No início do século vinte, a cultura continuava marcada por cuidados de ordem, de limitação dos desejos, e, individualmente, isso significava um excesso de recalque que podia parecer patogênico. O que é recalcado, para Freud, retorna com sintoma disfarçado, e a tarefa da cura é levantar o recalque. Hoje essa dimensão subsiste, porém muito atenuada. O que assume a posição de destaque não é o recalque do desejo, é antes um imperativo de usufruir. Também se pode dizer que o indivíduo, em nossos dias, se confronta com a prescrição de tudo dizer, de ser transparente, de tornar público o que, ainda ontem, era julgado inconveniente. Desde então, ele não pode mais recalcar de fato o que ele, no entanto, muitas vezes rejeita. Donde seu recurso a uma posição de cisão, que mantém, ao mesmo tempo, a recusa de certas representações e sua afirmação, como se esses conteúdos contraditórios pudessem coexistir, sem, no entanto, se influenciarem reciprocamente. A partir disso, concebe-se que o desafio que se propõe atualmente à análise é duplo. No plano teórico, trata-se de trabalhar os conceitos mais pertinentes relacionados com essa nova situação. O conceito de cisão, que Freud introduz a propósito do fetichismo, é um deles. E, no plano prático, trata-se de imaginar qual a direção da cura que pode convir nessa nova situação.

IHU On-Line – A psicanálise busca a cura da pessoa. Mas, qual o conceito de cura?
Roland Chemama – O indivíduo, para os psicanalistas, se define a partir do Outro, isto é, a partir daquilo pelo qual ele é inconscientemente determinado. Este Outro é, em primeiro lugar, a ordem da linguagem em geral, mas também, mais precisamente, aquilo a que o indivíduo está submetido. Uma psicanálise tem por objetivo tornar o indivíduo um pouco menos dependente, evitando que ele sacrifique tudo ao Outro.

IHU On-Line – Quais os principais sofrimentos dos que atualmente procuram a análise? De que outros parceiros a análise pode valer-se para buscar a cura?
Roland Chemama – Esta questão tem ligação com a primeira. Na situação em que descrevi o indivíduo, ou seja, conformar-se ao que parece ser esperado dele e buscar um gozo sem limite, o que o aproxima da posição perversa; ou seja, reprimir-se e abandonar todo desejo, o que o conduz à depressão. Os indivíduos que crêem saber qual é o objeto de sua satisfação, em geral não vêm para a análise. Mas, às vezes, eles o fazem e é importante não recusar recebê-los, sob pretexto que a cura com eles é particularmente difícil. Os casos de depressão são, de fato, cada vez mais numerosos. É claro, além disso, que em certos casos, um trabalho analítico não pode ser feito com um indivíduo totalmente paralisado pela depressão. Em casos desse gênero, a intervenção pontual de um psiquiatra, que prescreve antidepressivos de maneira limitada, é por vezes necessária. Mas, é importante, nesse caso, que o tipo de recurso a medicamentos seja concebido como simples meio de tornar possível o trabalho analítico.

IHU On-Line – Que escolas ou correntes psicanalíticas atuam mais fortemente na França e na Europa?
Roland Chemama – Na França, mesmo os psicanalistas que pertencem às escolas tradicionais (do I.P.A.) são hoje levados a ler e estudar Lacan. Conheço menos a situação no conjunto da Europa, mas segundo o testemunho de diversos colegas, parece que aí vale o mesmo.

IHU On-Line – Que elementos o senhor considera indispensáveis na psicanálise e que elementos são indispensáveis na formação de um psicanalista?
Roland Chemama – A psicanálise consiste em entender o discurso mais singular, o do inconsciente e, ao mesmo tempo, entendê-lo em sua relação com as determinações mais universais, pois cada palavra verídica intervém sobre um fundo cultural, que a análise deve sempre levar em consideração. Sob este ângulo, o analista deve ser um letrado, conhecedor, como o queria Freud, tanto da história universal quanto da história das religiões ou da literatura internacional. Ele não saberá entender o que lhe diz o seu paciente (“o analisando”) se ele for incapaz de relacionar o seu discurso com os diversos discursos sociais sobre os quais ele se destaca. Ele não saberá responder, se sua formação está fechada nos limites de uma disciplina universitária, com maior razão em nossa época, de crescente esfacelamento dos saberes. Na França, há atualmente um grande debate sobre a necessidade, ou não, de controlar o exercício da psicanálise. No que me diz respeito, sou muito crítico contra toda “avaliação” feita por outras pessoas, e não por analistas.