Seminário: Por uma clínica topológica: do esquema óptico aos grafos

Ministrante: Mario Fleig

 

 

Quem sou eu? Como alguém poderia responder a esta interrogação?

Ora, posto que nenhum traço predicável define um sujeito e, contudo, cada sujeito é sempre situável, podendo responder, mesmo que enigmaticamente, às três perguntas essenciais: quem sou?, de onde desejo? e o que desejo?, e através disso encontrar algo de suas identificações, resta-nos retomar o problema do nome próprio, como propõe Lacan no seminário A identificação.

Sabemos que o problema do nome próprio (WOLF, 1985) é enfrentando tanto pelos lógicos, no campo da função referencial, ligado à denotação com ou sem conotação quanto pelos linguistas (por exemplo, Benveniste e Jakobson). J. S. Mill nos apresenta sua já clássica concepção do nome próprio como  um termo individual não conotativo, isto é, sem atribuição, como uma marca. Já para Frege, o nome próprio sempre é referido a um objeto. Para Russell, o nome próprio é uma word for particular, um algo e como tal se define pelo seu caráter descritivo. Ou seja, é a substituição de uma descrição. Assim, Sócrates, o que não deixa de ser paradoxal, já não pode mais ser considerado um nome próprio, dado que quando pronunciamos já não comporta nenhuma descrição de um alguém.

Lacan, face ao que considera uma insuficiência das formulações sobre o nome próprio, retoma a questão nas aulas de 20.12.61 e 10.01.62 (ver também em Escritos, p. 833s), e postula que o sujeito não se identifica com o nome próprio, mas com o traço significante que lhe permite ser dito um.

O nome próprio é que veicula a operação de instauração do sujeito nomeando seu lugar e especificando sua pertença. O sujeito é o efeito de um discurso no movimento do qual seu lugar já está inscrito desde seu nascimento, sob a forma de seu nome próprio. Dado que o traço unário é o suporte da identificação, resulta que o sujeito pode se contar ou descontar e assim ser representado no discurso por substituição a esse traço. A especificidade da teoria de Lacan sobre o nome próprio se situa no privilégio que mantém o nome próprio com a letra, no sentido em que ela se pronuncia tal qual em todas as línguas, não se traduz, mas se transfere eventualmente de alfabeto a alfabeto por transliteração. Este vínculo com a escritura, com a letra remete ao traço unário. A letra é um operador da estrutura, fazendo suporte do traço unário, do significante da diferença pura. O nome próprio funciona como um lugar vazio que tem por função designar o indivíduo, não simplesmente como indivíduo, mas como indivíduo suscetível de falhar. Pode-se entender o nome próprio do mesmo modo que se entende o zero, a partir do momento em que este zero conta por um.

Sobre isso trabalharemos em nosso próximo encontro.

 

Textos sugeridos disponíveis na Secretaria da Escola, com a sra. Filomena.

Este Seminário faz parte do Campo temático Escritos e seminários de Lacan, sob a responsabilidade de Mario Fleig, Maria Cristina Hein Fogaça, Nair Macena de Oliveira.

 

A Escola de Estudos Psicanalíticos define por “Campo temático” aquilo que considera indispensável e fundamental para a formação de um psicanalista, tanto na teoria como na prática, sendo sugerida a inserção em campos temáticos, a par do cuidado de cada um com sua análise e análise de controle.

 

Datas:  14/09, 19/10, 16/11/2017 (mensal, às quintas-feiras, 20h)

Modalidades de participação: presencial ou semipresencial (Skype)

Endereço: Rua Miguel Tostes, 949, sala I, Rio Branco, Porto Alegre (ver mapa)

Investimento por encontro: R$ 100,00;
Membros e Proponentes da EEP isentos de taxa

Inscrições: eepsicanaliticos@gmail.com, fone 051 33284727