Maria Cristina Fogaça

É instigante observar como o interesse pelos sonhos aparece cedo na correspondência de Freud com Fliess. Uma intuição que Freud não abandona e que se permite exercitar em suas correspondências e conversações com o amigo. Em certos momentos, parece mesmo que o enigma dos sonhos o sustenta nos reveses da clínica e na elaboração da sua teoria. Em setembro de 1897, ao aperceber-se dos equívocos de algumas de suas construções teóricas, escreve que não acredita mais em sua neurótica. E com a constatação dos reveses de sua clínica, com a perda substancial de clientes, não se envergonha nem se deprime, ao contrário, orgulha-se de ter ido tão fundo em seu trabalho e ainda assim ser capaz de criticá-lo e interpreta isso como a possibilidade de avançar rumo a novos conhecimentos. Nesse momento, então, escreve: “É uma pena que não se possa ganhar a vida com a interpretação dos sonhos”.

Seu sofrimento na gestação deste trabalho aparece pungente e mesmo comovente em algumas cartas. Há momentos em que produz com abundância e com alegria e outros em que se afunda num mal estar, que por vezes chega a atacar seu físico, por não conseguir superar os impasses teóricos que vão surgindo. Há outros, no entanto, que emerge triunfante do mar cinzento das incertezas, demonstrando sua euforia por sentir-se um desbravador de mundos nunca “d’antes” explorados.

As cartas são de certa forma, os bastidores de sua obra, com toda acepção que a palavra bastidor tem, como: espécie de caixilho de madeira, no qual se prende e se estica o tecido sobre o qual se borda e pinta; cosedor; armação móvel de cenário; caixa do palco; coxia; atrás do pano de boca onde ficam os atores; ambiente fora do alcance do público, em que resoluções são tomadas e ações são empreendidas; o lado não patente de algo; a intimidade.

Mas, vamos às cartas:

1). O4. 03.1895 – 55/22- A primeira carta cita um sonho como algo que porta um sentido (segundo a minha leitura) é a carta em que fala da cirurgia de Emma Eckstein.

“Cientificamente, há poucas novidades. Estou escrevendo às pressas o ensaio sobre a terapia da histeria. Daí a demora caso de tabes* (Progressiva atrofia ou decadência do corpo ou parte dele) (nariz!) recebeu o reconhecimento do professor Lang e é agora considerado uma proeza da perspicácia no diagnóstico. Afora isso, nada além de tabes; não tenho nada a remeter-lhe máximo, uma pequena analogia com a psicose onírica de Emma E., de que fomos testemunhas. Rudi Kaufmann, um sobrinho muito inteligente de Breuer, e também médico, costuma acordar tarde. Pede à camareira que o acorde, mas, depois, reluta muito manhã, ela tornou a acordá-lo e, como ele não quisesse dar-lhe ouvidos, ela o chamou pelo nome, “Sr. Rudi”. Ao que o dorminhoco alucinou uma placa hospitalar (como a do Rudolfinerhaus) em que estava escrito o nome de “Rudolf Kaufmann” e disse para si mesmo: “Quer dizer que R.K. já está no hospital; então não preciso ir até lá”, e continuou dormindo!”

2). 23.09.1895 – 74/28 A – Relata que segue escrevendo o projeto. Apenas uma frase sobre sonhos:

“Um sonho de anteontem produziu a mais curiosa confirmação da concepção de que os sonhos são motivados pela realização de desejos.”

3). 07.03.1896 – 90/ – – Nesta carta Freud propõe um congresso a Fliess durante a Páscoa, para o qual se dispõe a levar alguns trabalhos: ‘a etiologia das neuroses de defesa’, ‘uma conjectura psicológica’ e dentre eles a análise de um sonho. O congresso deveria acontecer em Schandau ou Dresden.

(A partir de agora – cartas relativas ao período de isolamento da comunidade científica).

4). 04.05.1896 – 96/45 Continua a trabalhar na psicologia (Projeto) “vigorosamente e na solidão”. Acredita com firmeza cada vez maior, conforme ele diz, na teoria química dos neurônios. Diz ele “Sinto-me mais seguro quanto à consciência e preciso agora fazer uma tentativa de lidar com esta coisa, que é a mais difícil de todas, em minhas aulas sobre a histeria. No sábado, fiz uma palestra sobre a interpretação de sonhos para jovens do círculo acadêmico de leitura judaica; um dia você saberá o que ela conteve; no momento, não tenho a menor disposição para apresentações.”.

5). 02.11.1896 – 109/50 B Carta imediatamente posterior ao enterro do pai de Freud, que faleceu no dia 23 de outubro. Sente-se triste e “totalmente desarraigado.” Enaltece o valor que o pai teve em sua vida e reconhece o efeito que a sabedoria paterna mesclada com uma forma despreocupada de viver teve sobre si. No momento escreve sobre as paralisias infantis. Diz ele:

“Preciso contar-lhe um sonho agradável que tive na noite seguinte ao funeral (23.10.1896). Eu estava num lugar onde li uma placa:

Pede-se

Que você feche os olhos

Reconheci imediatamente o local como sendo a barbearia aonde vou todos os dias. No dia do funeral, fiquei esperando minha vez, cheguei um pouco atrasado ao velório. Na ocasião, minha família estava descontente comigo por eu ter tomado providências para que o funeral fosse discreto e simples, o que depois concordaram ter sido muito justificado. Estavam também um pouco ofendidos com meu atraso. A frase na placa tem um sentido duplo: cada um deve cumprir seu dever para com os mortos (um pedido de desculpas, como se eu não o tivesse feito e estivesse precisando de clemência), e o dever real em si mesmo. O sonho, portanto, provém da tendência à auto-recriminação que costuma instalar-se entre os que permanecem vivos.”.

Cartas relativas ao período de auto-análise

6) 28.04.1897 – 125/ 60 – Em seguida de um congresso que presumo que tenha ocorrido em Praga porque nas cartas anteriores foi isso que foi tratado. No entanto, no sonho é como se fosse Veneza.

“Querido Wilhelm,

Ontem à noite tive um sonho a seu respeito. Era uma mensagem telegráfica sobre seu paradeiro:
(Veneza) Via Casa “secerno”

Vila

O modo como escrevi mostra o que parecia obscuro e o que parecia multiplicado. “Secerno” era a palavra mais clara. Meu sentimento em relação a ela foi de irritação por você não ter ido para o lugar que eu lhe havia recomendado: a casa Kirsch (pensão em Veneza).

Relatório sobre os motivos. Causa provocadora: acontecimentos do dia anterior. H. esteve aqui e falou sobre Nurenberg, dizendo que conhecia a cidade muito bem e que costumava hospedar-se no Preller. Não consegui lembrar-me do lugar de imediato, mas depois perguntei: “Fora da cidade?” Essa conversa mobilizou a tristeza que tenho sentido ultimamente por não saber onde você está hospedado e por não receber noticias suas. Pois eu queria tê-lo como meu público e lhe contar um pouco do que tenho experimentado e descoberto em meu trabalho. Mas não ousei mandar minhas anotações para destino ignorado, pois teria precisado pedir-lhe que as guardasse para mim como material valioso. Portanto, se você mandasse para mim o seu endereço por telegrama, isso seria a realização de um desejo. Há toda a espécie de coisas por trás do enunciado do telegrama: a lembrança do prazer etimológico que você costuma proporcionar-me, minha alusão a fora da cidade, feita a H., e também coisas mais sérias que logo me ocorreram. “Como se você precisasse ter sempre alguma coisa especial!”, diz minha irritação. Acrescente-se a isso que você não conseguiu tirar o menor prazer da Idade Média, ainda por cima, minha reação persistente a seu sonho defensivo, que tentou colocar o avô no lugar costumeiro do pai. Ligado a isso, o fato de eu me atormentar constantemente pensando em como posso dar-lhe alguma pista sobre quem era a pessoa que chamava I.F. de Katzel (gatinho) quando criança, tal como agora ela chama você. Já que eu próprio ainda tenho dúvidas quanto às questões concernentes ao pai, minha sensibilidade passa a ser compreensível. Portanto, o sonho reúne toda a minha irritação com você, que está inconscientemente presente propósito o enunciado tem ainda outros sentidos:

Via (as ruas de Pompéia que ando estudando).

Villa ( a vila romana de Böklin)

Logo, nossas conversas sobre viagens. Secerno me soa semelhante à Salerno: napolitana, siciliana. Por trás disso, sua promessa de um congresso em solo italiano.”

7) 02.05.1897 126/ Rascunho L – A arquitetura da histeria. Nesse momento Freud ainda trabalha com a hipótese da sedução real como sendo as cenas sexuais mais primitivas. Outro sonho de realização de desejo (ex. de um paciente):

“__ Acho que esse é um sonho de realização de desejo, disse E.”

“ __Sonhei que, quando ia chegando em casa com uma mulher, fui preso por um policial, que me pediu que entrasse numa carruagem. Pedi mais tempo para pôr minhas coisas em ordem, e assim por diante. Era de manhã, depois de eu ter passado a noite com a mulher.

__Você ficou apavorado?

__Não.

__Sabe do que era acusado?

__Sim, de ter matado uma criança.

__E isso tem alguma ligação com a realidade?

__Uma vez fui responsável pelo aborto de um filho que resultou de um caso amoroso. Não gosto de pensar no assunto.

__Bem, e não havia acontecido nada na manhã anterior ao sonho?

__Sim, eu tirei fora.

__Então você estava com medo de ter gerado uma criança e o sonho lhe mostra a realização de seu desejo de que nada acontecesse, de ter podado a criança na raiz. Você usou o sentimento de angústia que surge depois desse tipo de coito como material para seu sonho.”

8) 16/05/1897 – 127/ 62 B
“Não importa onde comece, estou sempre voltando às neuroses e ao aparelho y psíquico. Com certeza, não é por uma indiferença pessoal nem objetiva que não consigo fazer com que minha pena escreva nada além disso. As coisas estão fermentando, borbulhando dentro de mim; só estou à espera de um novo ímpeto. Não consigo decidir-me a escrever o esboço preliminar da obra completa que você deseja; creio que o que me impede é uma obscura expectativa de que logo surgirá alguma coisa de essencial. Por outro lado tenho –me sentido impelido a trabalhar no sonho, onde me sinto bem seguro __ e, em sua opinião, justificadamente. Por um momento, tive minhas publicações (Sinopses dos escritos científicos do Dr. S. Freud 1877-1897) para o editor; a votação para o cargo de professor-adjunto deve ocorrer a qualquer momento. Agora, terminei e estou novamente pensando no livro sobre o sonho. Tenho examinado a literatura e me sinto como o diabinho celta: “Ah, como estou contente porque ninguém, ninguém sabe!” (citação dos Irmãos Grimm __ Rumpelstilzchen). Ninguém sequer suspeita de que o sonho não é nenhum absurdo, e sim uma realização de desejo.”

9) 31/05/1897 – 129/ 64B

“Não sei se ainda me ocorrerá alguma coisa digna de ser comunicada; não quero mais trabalhar em nada; pus de lado até mesmo o livro sobre o sonho. Recentemente sonhei ter sentimentos excessivamente afetuosos por Mathilde, só que ela se chamava Hella; depois, tornei a ver “ Hella” diante de mim, impresso em tipos grandes. Solução: Hella é o nome de uma sobrinha norte-americana, cuja fotografia nos foi enviada.

Mathilde pode ser chamada “Hella” porque, faz pouco tempo, chorou amargamente por causa das derrotas dos gregos. Está fascinada pela mitologia da antiga Hélade e, naturalmente, encara todos os helenos como heróis. O sonho, é claro, mostra a realização de meu desejo de encontrar um Pater como originador da neurose e, desse modo, pôr fim a minhas dúvidas reiteradas.

Numa outra ocasião, sonhei que estava subindo uma escadaria, vestido com pouca roupa. Eu me movimentava, como o sonho enfatizou explicitamente, com grande agilidade. (Meu coração __ reasseguramento!) De repente, porém, percebi que uma mulher vinha em meu encalço e, nesse momento, instalou-se a sensação, tão comum nos sonhos, de estar pregado naquele lugar, de estar paralisado. A sensação concomitante não foi de angústia, e sim de excitação erótica. Veja, portanto, como a sensação de paralisia, que é característica do sono, foi usada para a realização de um desejo exibicionista. De fato, um pouco antes, naquela noite, eu tinha subido as escadarias que vem de nosso apartamento no térreo __ sem colarinho, pelo menos __ e havia pensado que um de nossos vizinhos poderia estar na sacada.”.

No rascunho N anexo a esta carta, quando trata das “Motivações para a formação de sintomas” Freud escreve: “A primeira motivação para a formação de sintomas é, cronologicamente, a libido. Portanto, os sintomas tal como os sonhos, são a realização de um desejo.”.

10) 07/07/1897 – 132/ 66B

Freud lamenta-se por estar se sentindo imprestável, não consegue fazer progressos na compreensão das neuroses. Diz-se vítima de uma paralisia redacional de origem obscura. No entanto, observa que tem feito progressos em seu trabalho e idéias lhe ocorrem apesar de não estar conseguindo comunica-las a Fliess. Escreve então:

“Assim, vejo que a defesa contra as lembranças não impede que elas dêm origem a estruturas psíquicas superiores, que persistem por algum tempo e depois são submetidas à defesa. Esta, porém, é de um tipo altamente específico __ precisamente como nos sonhos, que contêm ‘in nuce’ (em resumo) toda a psicologia das neuroses em geral.”…

“A coisa mais certa me parece ser a explicação dos sonhos, mas ela está cercada por um vasto número de enigmas pertinazes.”…

“Há um sonho interessante sobre perambular entre estranhos, total ou parcialmente despido, e com sentimentos de vergonha e angústia. Curiosamente, a regra é as pessoas não repararem nisso __ o que se deve agradecer à realização de desejos. Esse material onírico, que remonta ao exibicionismo da infância, foi mal interpretado e didaticamente transformado num conhecido conto de fadas. (As roupas imaginárias do rei __”Talismã”). Habitualmente o ego interpreta outros sonhos da mesma maneira equivocada”.

Cartas relativas ao período da “teoria transformada”

11) 21/09/1897 _ 139/69 B – é a carta revela seu desapontamento com sua teoria das neuroses. “Não acredito mais em minha neurótica”, diz ele. E, faz uma crítica dura dos resultados até então obtidos com sua pesquisa, a partir dos insucessos na sua clínica. Mas ele não está abatido, antes pelo contrário, está orgulhoso do vigor e da honestidade do seu trabalho e se pergunta se essa dúvida não representaria um avanço em direção a novos conhecimentos. Em suma, ele está alegre, e no final da carta fala do livro dos sonhos: “Tenho que acrescentar mais uma coisa. Neste colapso de tudo o que é valioso, apenas o psicológico permaneceu inalterado. O livro sobre o sonho continua inteiramente seguro e meus primórdios do trabalho metapsicológico só fizeram crescer em meu apreço. É uma pena que não se possa ganhar a vida, por exemplo, com a interpretação de sonhos!”

12) 03/10/1897 – 141/70 B – na conclusão que Freud elabora e que derruba a sua “neurótica”, Freud demonstra não ser possível que todos os pais sejam de fato pervertidos para com seus filhos, e a sua convicção de que não há realismo no inconsciente, de modo que não se pode distinguir entre um fato da realidade e a ficção que foram investidos pelo afeto. Mas é mais uma vez os sonhos, que lhe propiciam novos esclarecimentos que lhe advém de sua auto-análise: “ Ainda há muito poucas coisas acontecendo comigo externamente, mas, internamente, há algo muito interessante. Nos últimos quatro dias minha auto-análise, que considero indispensável para o esclarecimento de todo o problema, prosseguiu nos sonhos e me forneceu as mais valiosas elucidações e indícios. Em alguns momentos tenho a sensação de estar no final e, até agora, sempre soube onde a próxima noite de sonhos seria retomada. Colocar isso no papel me é mais difícil do que qualquer outra coisa; também me levaria a divagações demais. Só posso esclarecer que meu velho não desempenha nenhum papel ativo em meu caso, mas que sem dúvida, fiz uma inferência sobre ele, por analogia, a partir de mim mesmo; que em meu caso, o “originador primordial” foi uma mulher feia e idosa, porem esperta, que muito me ensinou sobre Deus Todo-poderoso e o inferno…”

Na carta seguinte datada de 04 de outubro segue com sonhos elucidativos, demonstrando que os sonhos podem resgatar lembranças não acessíveis à consciência. Ao fornecer um detalhe que não fazia parte do conhecimento dele, o sonho revela uma lembrança perdida. Conta-nos ele: “O sonho de hoje trouxe o seguinte, sob os mais estranhos disfarces: ela era a minha mestra em assuntos sexuais e reclamava por eu ser desajeitado e incapaz de fazer qualquer coisa. (A impotência neurótica sempre aparece dessa maneira. O medo de não ser capaz de fazer nada na escola assim obtém seu substrato sexual). Ao mesmo tempo, eu via o crânio de um pequeno animal e, no sonho pensava em “ porco”, mas, na análise, associei isso com seu desejo de dois anos atrás de que eu encontrasse no Lido, como fez Goethe, um crânio que me pudesse esclarecer. Mas não encontrei. Portanto, fui uma “cabeça dura”, literalmente uma cabeça de ovelha. Todo o sonho estava repleto das mais mortificantes alusões a minha impotência atual como terapeuta. Talvez seja disso que decorre a inclinação a acreditar na incurabilidade da histeria. Além do mais ela me lavava numa água avermelhada em que se havia banhado antes. (A interpretação não é difícil; não encontro nada de semelhante a isso na cadeia de minhas lembranças; portanto, encaro-o como uma autêntica descoberta do passado distante.) E ela me fazia furtar zehners (moedas de dez kreuzers) e dá-los a ela. Há uma longa seqüência que vai desde esses primeiros zehners até a pilha de notas de dez florins que vi no sonho como o dinheiro das despesas domésticas semanais de Martha. O sonho poderia ser resumido como “mau tratamento”. Assim como a velha recebia dinheiro de mim pelo mau tratamento que me dispensava, hoje recebo dinheiro pelo mau tratamento dado aos meus pacientes.”.

13) 15/10/1897 – 142/ 71B – Freud segue em sua auto-análise e são os sonhos que a alimentam. E são os sonhos também que vão lhe indicando os novos rumos de sua teoria. É nesta carta que Freud relata o que futuramente vai denominar de Complexo de Édipo. Continua com a interpretação do sonho com a velha (que havia sido sua babá).

“Perguntei a minha mãe se ela ainda se recordava da babá. “È claro”, disse ela, “uma pessoa mais velha, muito esperta, que estava sempre levando você para alguma igreja; quando voltava para casa, você fazia sermões e nos dizia tudo sobre Deus Todo-Poderoso.”.

Enfim descobriram que ela era ladra e ela foi presa.

“Ora, veja como isso confirma as conclusões de minha interpretação do sonho. Foi-me fácil explicar o único erro possível. Escrevi-lhe dizendo que ela me induzia a roubar zehners e entrega-los a ela. Na verdade o sonho significou que ela própria os furtava. Pois a imagem do sonho era uma lembrança de mim mesmo tirando dinheiro da mãe de um médico __ ou seja, indevidamente. A interpretação correta é: eu = ela, e a mãe do médico = mamãe. Eu estava tão longe de saber que ela era ladra que fiz uma interpretação errônea”.

14) 31/10/1897 – 144/ 73 – Sua clínica continua fraca de forma que tem muito tempo livre, em vista disso dispõe-se a aceitar dois casos sem cobrar honorários. Somando-se estes ao seu próprio caso, são três análises que não lhe rendem nada financeiramente. Contudo, continua aferrado a sua auto-análise e, em que pese considere tudo muito obscuro, sente-se embalado por um sentimento reconfortante de que é possível retirar o que se precisa de sua própria despensa.

Pergunta a Fliess se ele acredita que o que as crianças dizem durante o sono faça parte dos sonhos. “ Se assim for, posso apresentar-lhe o mais recente sonho de realização de desejo: Annerl, de um ano e meio. Ela teve que ficar em jejum por um dia, em Aussee, por ter vomitado pela manhã, o que foi atribuído a uma refeição composta de morangos. Na noite seguinte, recitou um cardápio completo enquanto dormia: “Molangos, molangos silvestres, ovo mexido, pudim.”.

15) 05/11/1897 – 145/74 B – Sente-se desanimado carente de diálogo e incentivos. No momento não consegue ler nem pensar, esgotado pela observação. Sua auto-análise segue por um filete, lentamente sem que ele entenda nada sobre o rumo que vai tomando. Reclama de Fliess por ele não ter comentado nada a respeito da interpretação que Freud fez sobre Oedipus Rex e de Hamlet (carta de 15 de outubro), teme a rejeição de suas idéias. Em contraponto com o que lhe parece um sucesso de Fliess com as suas combinatórias de números diz não saber por onde anda o que o deixa muito amolado consigo mesmo e que vai forçar-se a escrever o livro sobre os sonhos para sair disso..

16) 14/11/1897 – 146/75 B É uma carta longa fala da importância dos pressentimentos nas suas descobertas. É provável que ele aí esteja falando de intuições, que via de regra o levaram às suas construções teóricas como o recalcamento, as neuroses etc. Mas estou citando esta carta porque ele diz algo, no final, que é muito importante (lúcido, duro e solitário): “Minha auto-analise continua interrompida. Apercebi-me da razão porque só posso me analisar com auxílio de conhecimentos objetivamente adquiridos (como uma pessoa de fora). A verdadeira auto-analise é impossível, caso contrário, não haveria doença neurótica .

17) 03/12/1897 – 149/ 77 B – Perspectiva de um novo encontro com Fliess que em princípio deve ocorrer ele ressalta a importância dos sonhos para a escolha dos locais de encontro.

“Você certamente sabe que o que aconteceu em Praga mostrou que eu estava com a razão. Quando nos decidimos em favor de Praga da última vez, os sonhos tiveram uma grande parcela nisso. Você não queria ir a Praga, e ainda sabe porquê, e, ao mesmo tempo, sonhei que estava em Roma, andando pelas ruas e me sentindo surpreso diante do grande número de placas de rua e letreiros de lojas e pensei, de imediato: com que então, essa era Praga (onde as placas em alemão, como todos sabem, são necessárias). Portanto, o sonho havia realizado meu desejo de ir a seu encontro em Roma, e não , meu anseio por Roma é profundamente neurótico. Está ligado a minha idolatria ginasiana pelo Aníbal semita e, de fato, este ano, também eu não cheguei até Roma, assim como ele não conseguiu atingi-la partindo do Lago Trasimeno. Desde que comecei estudar o inconsciente, tornei-me muito interessante para mim mesmo. É uma pena que sempre se fique de boca fechada sobre as coisas mais íntimas.”

Aqui acrescenta uma citação de Goethe, Fausto, cujo sentido aqui seria: “O que se sabe de melhor não pode ser dito aos meninos”.

18) 04/01/1898 – 153/81 B Nesse meio tempo, entre dezembro e janeiro ocorreu o encontro em Breslau, onde mais uma vez o sonho esteve está bastante satisfeito por ter realizado palestras sobre interpretação dos sonhos na sociedade judaica onde foi entusiasticamente aplaudido. O público leigo faz perguntas sem muita censura, como por exemplo: se é possível interpretar os sonhos absurdos da mesma maneira e Freud vê aí o valor das palestras populares, pois seus colegas médicos jamais lhe fariam uma pergunta dessas. Sua mente está muito ativa, cheia de “intuições” trabalhando a “representação de palavra” e suas manifestações na neurose obsessiva. Daí, diz Freud, serem as coisas mais díspares prontamente reunidas numa só palavra e, mais ainda, isso não é totalmente arbitrário.

Ele tem enviado a Fliess relatórios que ele chama de “Dreckológicos” (do grego – coleção de merdas) O número 1, diz ele, estou conservando comigo, contém sonhos desvairados que dificilmente seriam de seu interesse; eles fazem parte de minha auto-análise, que ainda continua tateando na mais total escuridão.”.

19) 16/01/1898 – 154/ – continua bem humorado escrevendo seus relatórios dreckológicos. Neste terceiro relatório diz: “Há toda sorte de coisinhas proliferando; o sonho e a histeria se encaixam com perfeição cada vez maior. Os detalhes são agora obstáculos no caminho dos grandes problemas mencionados em Breslau. É preciso aceitar as coisas como vão surgindo.”.

20) 30/01/1898 – 156 – Confessa a Fliess que as alterações de humor pelas quais passa têm a ver com os sonhos e sua auto-análise, pois tem pouca compreensão deles.

21) 09/02/1898 – 157/83 B – “Estou profundamente imerso no livro dos sonhos, escrevendo-o com fluência, e gosto da idéia de todas as “cabeças balançando” por causa das indiscrições e ousadias que contém. Se ao menos não fosse necessário ler tanto! Já estou farto da escassa literatura que existe. A única idéia sensata ocorreu ao velho Fechner, em sua sublime simplicidade: o processo do sonho se desenrola num território psíquico diferente. Farei um relato sobre o primeiro mapa grosseiro desse território”.

Acrescenta que sua auto-análise está em repouso e que os casos de histeria vão bem devagar, tudo em prol do livro dos sonhos.

22) 23/02/1898 -158 – Parece queixar-se de que Fliess não lhe responde as cartas prontamente, sente falta do outro. Anuncia que diversos capítulos do livro dos sonhos já estão completos e que está primoroso e que o está levando mais fundo na psicologia do que ele havia imaginado.

23) 05/03/1898 – 159 – “Terminei uma seção inteira do livro dos sonhos, a mais bem escrita delas, sem dúvida, e estou curioso sobre o que mais me ocorrerá.”.

24) 10/03/1898 160/ 84 B – “Ad vocem Kück (quanto a sua visão): não foi uma proeza nada insignificante de sua parte ver o livro dos sonhos concluído diante de você. Ele deu uma parada nova, e, nesse meio tempo, o problema se aprofundou e se ampliou. Parece-me que a teoria da realização de desejo trouxe apenas a solução psicológica, e não a biológica __ ou melhor, metapsíquica. (A propósito, vou perguntar-lhe a sério se posso usar o nome metapsicologia para minha psicologia que se estende para além da consciência). Biologicamente, a vida onírica me parece derivar inteiramente dos resíduos da fase pré-histórica da vida (entre um e três anos de idade) __ o mesmo período que é fonte do inconsciente e que contém sozinho, a etiologia de todas as psiconeuroses, período este normalmente caracterizado por uma amnésia análoga a uma amnésia histérica. A seguinte fórmula me é sugerida: aquilo que é visto no período pré-histórico produz o sonho; o que é ouvido nele produz as fantasias; o que é sexualmente experimentado produz as psiconeuroses. A repetição do que foi experimentado, neste período é, em si mesma, a realização de um desejo; um desejo recente só leva a um sonho quando consegue ligar-se a algum material proveniente desse período pré-histórico, quando o desejo recente é derivado de um desejo pré-histórico, ou quando consegue ser adotado por um destes. Resta ainda examinar até que ponto poderei expô-la claramente no livro dos sonhos.”

Fase da Interpretação dos sonhos

25) 15/031898 – 161/ 81 B – Queixa-se de total embotamento, dorme nas análises vespertinas e nada de novo lhe ocorre. Sente-se como um cavalo de tílburi, tendo que dar conta de 8 horas de análise diárias para atender as necessidades financeiras da família. Pensa em enviar fragmentos do trabalho sobre os sonhos para que Fliess os leia. Explica que este que está lhe enviando é o segundo capítulo, pois o primeiro sobre a literatura ainda não foi escrito. Será seguido por: 3. O material onírico; 4. Sonhos típicos; 5. Os processos psíquicos nos sonhos; 6. Os sonhos e as neuroses.

Os comentários sobre Oedipus Rex, o conto de fadas do talismã e, possivelmente, Hamlet, hão de encontrar seu lugar, mas primeiramente será preciso estudar a lenda do Édipo e ele ainda não sabe onde.

26) 24/03/1898 – 162/86 B Chega a avaliação de Fliess sobre o capítulo dos sonhos e Freud responde a Fliess: “Você não há de ficar surpreso por eu lhe escrever hoje sobre sua avaliação de meu manuscrito sobre os sonhos, que chegou a minhas mãos. Sem dúvida, você não gostaria que eu o comparasse a Breuer em nenhum sentido; mas a comparação se impõe. Penso na insinceridade com que ele distribuía parcimoniosamente seus elogios __ por exemplo, o estilo é maravilhoso, as idéias são extremamente engenhosas __ e na consideração que o levava a expressar suas objeções detalhistas aos aspectos essenciais a outras pessoas, por meio de quem eu tomava conhecimento delas, posteriormente. Muitas vezes alegro-me por estar livre dele.

Felizmente, posso responder a suas objeções fazendo referencia aos capítulos posteriores.. Acabo de me deter antes de um desses capítulos, sonhos de angústia, sobre os quais se voltará a lançar a luz no último capítulo, sobre “Os sonhos e a neurose”. Na exposição que você leu, porém, incluirei algumas remissões, para evitar a impressão que ela lhe causou de que o autor simplifica demais as coisas nesse ponto.

De modo algum penso nessa versão como final. Primeiro quero colocar minhas próprias idéias em ordem, depois estudar detalhadamente a literatura, e então fazer inserções ou revisões onde isso for recomendado por minhas leituras. Não posso fazer a leitura antes de haver concluído o que eu mesmo tenho a dizer, e só sei compor os detalhes no processo de escrever. Até o momento, foram terminadas mais vinte e quatro páginas, mas desconfio de que nenhuma outra seção se revelará tão divertida e tão bem acabada quanto a que você leu.”

27) 03/04/1898 – 163/ – Freud está muito frustrado porque o congresso da Páscoa não aconteceu. Continua a escrever sem a mesma regularidade o livro sobre os sonhos. Está quase terminando a seção que versa sobre os sonhos típicos e as fontes dos sonhos, mas considera esta parte menos satisfatória que a anterior. Está completamente absorvido pelo trabalho dos sonhos, nada mais parece provocar seu interesse.

28) 01/05/98 – 166 / 89 C – Em anexo a esta carta vai o cap. 3 do sonho. Você me achará bastante intragável; estou completamente empenhado no livro do sonho e completamente estúpido no que diz respeito a ele. Escrevi agora a parte sobre psicologia em que me achava emperrado, mas não gosto dela nem ela ficará como está. O capítulo que você está recebendo agora ainda está muito cru em termos estilísticos e ruim em algumas partes, isto é escrito sem muita vivacidade. Deixei algumas lacunas no tocante aos estímulos somáticos, que ainda precisam ser destacados com maior nitidez. Naturalmente espero que você faça vários pronunciamentos vigorosos sobre ele quando nos encontrarmos outra vez. As conclusões, creio eu, estão corretas.

Na carta seguinte, que é de 18 de maio, Freud diz que já está com outro capítulo quase terminado, mas que o levará no congresso que deverá ocorrer logo ansioso pelo encontro e porque espera que a elucidação dos processos psíquicos do sonho, tarefa que ainda o aguarda, só poderá ser abordada após os insumos que receberá do amigo.

Em 24 de maio está com o cap. seguinte (formação dos sonhos) concluído.

29) 09/06/1898- 169/90 B – É a carta imediata após o congresso. Ela é importante porque nela Freud relata uma crítica de Fliess que o leva a retirar um sonho do livro, o único sonho completamente analisado. Isso produziu uma paralisia em sua produção por alguns meses. Diz a carta:

“Muito obrigado, também por sua crítica. Sei que você empreendeu uma tarefa ingrata. Sou suficientemente razoável para saber que preciso de sua ajuda crítica, pois, nessa situação, eu mesmo perdi o sentimento de vergonha que se exige de um autor. Portanto, o sonho está condenado. Agora que a sentença foi proferida, porém, eu gostaria de derramar uma lágrima por ela e confessar que a lamento e que não tenho nenhuma esperança de encontrar um sonho melhor que o substitua. Como você sabe, um lindo sonho e nenhuma indiscrição… não coincidem.”

Pede a Fliess que ele lhe diga o que especificamente ele objetou: seria a angustia que Freud experimenta no sonho, à Martha, à pobreza ou ao fato de estar sem pátria? Desse modo ele poderia omitir estes detalhes em outros sonhos. Segue:

“Com a continuação do livro do sonho, há qualquer coisa que não funciona. Certo, já cheguei à página 14, mas é impossível publicá-lo, talvez até mostrá-lo a outra pessoa. Um simples ensaio experimental. É terrivelmente difícil expor a nova psicologia no que tange ao sonho: ela é necessariamente fragmentada, e todas as partes obscuras que, num estado de inércia, fui adiando até o momento, reclamam elucidação. Preciso de muita paciência, de um estado de espírito elevado e de algumas boas idéias. Estou emperrado na relação entre os dois sistemas de pensamento; preciso abordá-los com afinco. Mais uma vez, durante algum tempo, não terei serventia para ninguém. A tensão da incerteza responde por um estado abominavelmente desagradável, que se chega a sentir quase fisicamente.”

30) 23/10/1898 – 180/ Carta de felicitações pelo aniversário de Fliess. Desde 9 de julho, esta é a primeira vez que Freud torna a mencionar os sonhos. Nesse ínterim em que parece não ter parado de chorar o sonho perdido, trabalha no Projeto, no esquecimento de nomes, escreve um ensaio sobre “Signorelli” (O mecanismo psíquico do esquecimento), autor de “Os efeitos dos sentimentos inconscientes nos sonhos” e pensa como reencontrar seu caminho para o “livro”. Escreve:

“Não estou suficientemente recomposto, é claro, para fazer qualquer coisa além de, possivelmente, estudar a topografia de Roma, pela qual meu anseio se vai tornando cada vez mais torturante. O livro do sonho está inerte, imutavelmente; falta-me o incentivo para terminá-lo para publicação, e o hiato na psicologia, assim como a lacuna deixada pela retirada da mostra de sonho, totalmente analisada, são obstáculos a sua conclusão que não consegui superar até agora. Em outros aspectos estou completamente só; este ano, desisti até mesmo de dar aulas, para não ter que falar sobre nada que eu mesmo ainda tenho esperança de aprender.”

31) 05/12/1898 – 185/100 B – Continua lendo a literatura sobre os sonhos:

“A literatura que estou lendo no momento deixa-me completamente embotado. É uma punição terrível para aqueles que escrevem. Nesse processo, tudo o que se tem de próprio se esvai. Muitas vezes, não consigo lembrar-me o que foi que descobri de inédito, já que tudo nessa descoberta é inédito. A leitura vai-se estendendo para diante, sem que haja um fim à vista. Chega disso!”

Na carta seguinte (186), reforça novamente o tédio pavoroso que lhe causa, esse encargo que tomou para si, de ler a literatura sobre os sonhos.

32) 03/01/1899 – 188/ 101 B – Esta carta foi escrita imediatamente após um encontro com Fliess. Freud empresta um grande valor a esses encontros que o iluminam e o fazem vislumbrar coisas novas. Retorna a questão da sedução: “O que aconteceu na primeira infância? Nada (diz ele), mas existia o germe de um impulso sexual”.

Prossegue a carta no dia seguinte. Há qualquer coisa despontando, promete escrever quando tiver a coisa mais clara. “Quero revelar-lhe apenas que o esquema do sonho é passível da mais genérica das aplicações e que também a chave da histeria reside, de fato, nos sonhos. Agora também entendo porque, apesar de todos os meus esforços, ainda não terminei o livro do sonho. Se esperar um pouquinho mais, conseguirei apresentar o processo psíquico dos sonhos de tal modo que também inclusão processo da formação dos sintomas histéricos.”

33) 19/02/1899 – 192/105 B – Freud acha-se envolvido com sua nova descoberta de que a chave da neurose não estava nos acontecimentos reais (como as seduções) e sim nas fantasias (por ex.: de sedução pelo pai).

“Minha última generalização se manteve firme e parece inclinada a alcançar proporções imprevisíveis. Não apenas os sonhos, como também os ataques histéricos, são realizações de desejos. Isso se aplica aos sintomas histéricos, mas é provável que se aplique a todos os produtos de neurose, pois reconheci-o a muito tempo na insanidade delirante aguda. Realidade e realização de desejo: é desses opostos que emerge nossa vida mental. Creio saber agora o que determina a distinção entre os sintomas que abrem caminho para a vida de vigília e para os sonhos. Para o sonho, basta que ele seja a realização de desejo do pensamento recalcado, pois os sonhos são mantidos a distância da realidade. Mas o sintoma, inserido em meio à vida, precisa ser mais uma coisa: precisa também ser a realização de desejo do pensamento recalcador. O sintoma surge quando o pensamento recalcador e o recalcado se unem na realização de um desejo.”

34) 25/05/1899 – 198 – Informa a Fliess que usou a semana anterior a Pentecostes para escrever o ensaio “Lembranças encobridoras” e que gostou bastante dele e que isso não deve ser um bom presságio. No final da carta diz:

“Gostaria de imaginar que é possível introduzir o livro dos sonhos; ainda não sei como. Se as coisas continuarem como estão, em junho e julho, com dois pacientes e meio por dia, terei que escrevê-lo. O que mais poderia fazer com meu tempo?”

35) 28/05/1899 – 199/107 B – Como sua clínica não melhorou, o livro dos sonhos teve sua vez.

“… o livro do sonho está tomando forma, de repente, sem nenhuma motivação especial, só que, desta vez, tenho certeza dele. Decidi que não posso usar nenhum dos disfarces, nem dar-me o luxo de abrir mão de coisa alguma, (não será esta uma resposta a Fliess por sua crítica que o obrigou a retirada do sonho que Freud considerava completamente analisado? – carta de 09/06/98), pois não sou rico o bastante para guardar só para mim minha melhor descoberta e, provavelmente, a única duradoura. Nesse dilema, portei-me como o rabino na história do galo e da galinha. Você a conhece? Um casal que era dono de um galo e uma galinha resolveu celebrar os dias santos assando uma ave, mas marido e mulher não conseguiam decidir-se quanto a qual dos dois sacrificar e, desse modo voltaram-se para o rabino: __ Rebbe que devemos fazer? Só temos um galo e uma galinha. Se matarmos o galo, a galinha vai definhar; e se matarmos a galinha, o galo vai definhar. Mas queremos comer uma ave no dia santo; rabi, que vamos fazer? E o rabino: __ Sim, é verdade; então matem a galinha. __Mas, rabi, aí o galo vai definhar. E o rabino: __Pois que definhe!

Assim será com o livro do sonho. O fato de que esta Áustria deverá perecer nas próximas duas semanas tornou minha decisão mais fácil. Porque deveria o sonho parecer com ela? Infelizmente, só para assustar, os deuses puseram a literatura sobre o sonho antes da exposição. Da primeira vez fiquei emperrado nela. Desta vez abrirei caminho à força até o fim; de qualquer maneira não há nada de importante ali. Nenhum outro de meus trabalhos foi tão completamente meu, meu próprio monte de esterco, meu arbusto e, ainda por cima, uma nova ‘especies mihi’. Depois da literatura, haverá cortes, inserções e coisas parecidas, e tudo deverá estar pronto para o editor no final de julho, quando irei ao interior.”.

36) 09/06/1899 – 200/ 108 B – 200/ 108 B

“Um sinal de vida! O silêncio da floresta é o clamor de uma metrópole, comparado ao silêncio de meu consultório. É um bom lugar para “sonhar”. A literatura contém alguns espécimens que, pela primeira vez, fazem-me desejar nunca ter tido nada a ver com isso. Um deles se chama Spitta (to sipit = vomitar) ( um dos autores que Freud leu e que desvalorizam a vida onírica dizendo que as mesmas leis que governam na vigília presidem também o sonho). Já ultrapassei a montanha. Naturalmente, penetra-se cada vez mais fundo nisso e se chega a um ponto em que é preciso interromper. Mais uma vez, a questão inteira se resolve para mim num lugar-comum. Invariavelmente, o sonho visa a realizar um desejo que assume diversas formas. É o desejo de dormir! Sonhamos para não ter que acordar, porque queremos dormir.”.

Refere no dia 27/06 (carta202) que no dia seguinte irá enviar os primeiros cadernos ao impressor; e acha que talvez os outros gostem mais deles que ele próprio. E faz uma brincadeira a propósito contando uma anedota: “alguém pergunta __ como está sua mulher? Ao que o outro responde: __É uma questão de gosto, particularmente eu não gosto.”.

37) 03/07/1899 – 203/110 B – Nesta carta faz apenas uma citação de contentamento:

“O autor do “livro extremamente importante sobre os sonhos, que, infelizmente, ainda não foi suficientemente apreciado pelos cientistas”, sentiu-se maravilhosamente bem por quatro dias, em Berchtesgaden, no seio da família.”.

38) 08/07/1899 – 204

“Permita-me agradecer sua participação no livro do sonho, anexando a prova da primeira página. É uma sensação estranha, no caso desse filho da aflição! Tenho grandes dificuldades com ele; não consigo suportar mais de duas horas por dia sem convocar a ajuda do amigo Marsala (Fliess ao que parece iniciou Freud no gosto pelo vinho). “Ele” (no lugar do pronome neutro (do alemão) usa o pronome masculino antropomorfizando o vinho) me dá a ilusão de pensar que, na verdade, as coisas não são tão sombrias quanto parece quando estou sóbrio”.

39) 17/07/1899 – 206/ – O capítulo 1 do livro do sonho foi impresso em letra de forma e está aguardando a leitura da prova. Já está pensando em novos trabalhos tais como “A psicopatologia da vida cotidiana” e “Recalcamento e realização de desejo”. Sobre o lema para o livro escreve:

“Não apareceu nenhum lema para o livro do sonho desde que você matou o lema sentimental de Goethe. A referencia ao recalcamento é tudo o que vai restar: Flectere si nequeo superos, Acheronta movebo. Traduzido por: Se não posso dobrar os poderes mais altos, moverei as águas do Inferno” (Eneida VII: 312).

40) 22/07/1899 – 207/ 112 B –

“Com respeito ao livro do sonho, as coisas estão assim: faltava a ele um primeiro capítulo, uma introdução à literatura especializada, que__ a menos que eu esteja muito equivocado__ você também me pediu, para que esclarecesse o restante. Ela foi escrita, constituiu uma tarefa amarga para mim e não saiu muito satisfatória. A maioria dos leitores ficará retida nesse matagal espinhoso e jamais chegará a ver a Bela Adormecida por trás dele. O restante, com que você está familiarizado, será revisto, mas não muito drasticamente. Algumas seções que versam sobre a literatura serão retiradas; umas poucas referências específicas à literatura, em que acabei de esbarrar, ficarão espalhadas ao longo do texto; novos exemplos de sonhos serão inseridos a título de ilustração __ nenhum deles é grande coisa. Depois, o capítulo psicológico final precisará ser reescrito: a teoria do desejo, que, afinal, fornece o vínculo com o que vem a seguir; algumas hipóteses sobre o sono; um acordo sobre os sonhos de angústia; a inter-relação entre o desejo de dormir e o recalcado. Tudo isso, talvez, sob a forma de alusões.”

41) 01/08/1988 – 208/ 113 B – Envia a Fliess as primeiras provas do cap. introdutório, solicita comentários e diz do enorme bem que lhe faz o interesse de Fliess por este seu trabalho. Continua afirmando que este primeiro capítulo será uma dura prova para o leitor.

“Tenho trabalhado na conclusão do livro do sonho num quarto amplo e silencioso do térreo, com vista para as montanhas. Meus deuses antigos e encardidos, de que você faz tão pouco caso, participam do trabalho como pesos de papel para meus manuscritos. A perda do que você eliminou será compensada pela inserção de uma pequena coletânea de sonhos ( sonhos inofensivos e absurdos; cálculos e discursos nos sonhos; afeto nos sonhos). Apenas o último capítulo, o psicológico, precisa ser reelaborado, e talvez eu cuide dele em setembro e o mande a você sob a forma de manuscrito, ou então… leve-o eu mesmo. Ele está ocupando todo o meu interesse.”

42) 06/08/1899 – 209/ 114 B – O correio funcionava bem e eles liam muito depressa – 5 dias!

“Quando é que você não tem razão? Mais uma vez, você pôs em palavras aquilo em que eu vinha pensando vagamente cá comigo: que esse primeiro capítulo é capaz de impedir que uma porção de leitores prossiga para os capítulos subseqüentes. Mas pouco se pode fazer quanto a isso __ exceto colocar uma nota no prefácio, que elaboraremos quando todo o restante estiver pronto. Você não queria a literatura no corpo do texto, e estava certo; nem tampouco no começo, e estava certo outra vez. Você se sente da mesma forma que eu a esse respeito, o segredo, provavelmente, é que não gostamos nem um pouco dela. Mas, se não quisermos entregar aos “cientistas” um machado com que massacrar o pobre livro, temos que suporta-la em algum lugar. A coisa está planejada segundo o modelo de um passeio imaginário. No começo, a floresta escura dos autores (que não enxergam as árvores), irremediavelmente perdidos nas trilhas erradas. Depois, uma trilha oculta pela qual conduzo o leitor __ meu sonho exemplar, com suas peculiaridades, pormenores, indiscrições e piadas de mau gosto __ e então, de repente, o planalto com seu panorama e a pergunta: em que direção você quer ir agora?”

“É claro que não há necessidade de você devolver as provas que lhe estou mandando. Como você não fez objeção à coisa alguma no Capítulo 1, vou terminá-lo na prova definitiva. Nada mais foi impresso até o momento. Você receberá provas tão logo elas cheguem, e as partes novas serão assinaladas. Inseri um grande número de sonhos novos, que espero que você não corte. “para fazer uma omelete é preciso quebrar os ovos” (cita em francês). A propósito só “humana e humaniora” (sobre os homens e suas preocupações); nada realmente íntimo, isto é, pessoalmente sexual. Breuer também foi mantido à distância, tanto quanto possível. Gosto dele…, o que segundo a experiência é um mau presságio para seu sucesso. Com sua permissão colocarei o sonho do cardápio de Annerl. (…) Em algum ponto, é realmente preciso considerar a “grandeza” nos sonhos infantis; ela está relacionada com o ardente desejo das crianças de serem grandes, de poderem, ao menos uma vez, comer uma travessa cheia de salada, como o Papai: a criança jamais come o bastante, nem mesmo quando repete. A moderação é a coisa mais difícil para a criança, assim como para o neurótico.”.

Ao final da carta chama seu livro de “Livro egípcio dos sonhos”, comparando-o a interpretação dos sonhos no antigo Egito.

Na carta seguinte, de 20/08 fala de sua angústia frente ao último capítulo, o filosófico, que deverá começar no próximo mês e para o qual terá que fazer novas leituras.

43) 27/08/1899 – 211/ 116 B – Nada além do livro dos sonhos.

“Levei ontem para o correio uma pilha de papeis manuscritos (inclusive 56 páginas novas, interpretações de sonhos, exemplos), e já a necessidade do trabalho preparatório para o último e mais espinhoso capítulo, o psicológico, vai-se fazendo sentir; mas ainda não sei como esboça-lo e organiza-lo. Também devo fazer algumas leituras para ele; os psicólogos, de qualquer modo, encontrarão o bastante para repreender, mas uma coisa como essa só vem à luz da maneira que bem quer. Qualquer tentativa de torná-la melhor do que ela vai saindo por si só, lhe confere um caráter forçado. Logo ela conterá 2.467 erros __ que deixarei ficar.” (…)

“Você encontrará o sonho de Robert mais adiante, na seção sobre o egoísmo nos sonhos.”

“Nenhuma outra correção poderia ter-me deleitado tanto quanto a primeira que você fez __ sobre eu ter confundido as datas da supuração (Michael Schröter sugere que isso se refere a uma passagem ao analisar o sonho exemplar (o da injeção de Irma) menciona Fliess: “Mas ele próprio sofria de rinite supurativa, o que me causava angústia.” Schröter acha que Fliess pediu a Freud que mudasse o verbo de “sofre” para “sofria”, para mostrar que a rinite havia passado, pois era algo que ele já não sofria. Freud não fez a alteração). Só que isso está narrado no presente; você quer mesmo que eu faça a correção numa nota? Esse me parece ser um excelente exemplo do que se consegue quando não se pára para interromper a cadeia de pensamentos antes de se chegar ao ponto a que leva a explicação. E, naturalmente, todos aqueles borra-tintas e pessoas impotentes nunca dizem uma única palavra a respeito.”

“Você terá que me deixar algum espaço para meu “veneno” nas interpretações dos sonhos. Faz bem à constituição desabafar o que está engasgado.”.

44) 06/09/1899 – 212/ 117-

“Estou completamente mergulhado no livro do sonho, escrevendo oito a dez páginas por dia, e acabo de ultrapassar o pior da psicologia __ foi mortificante. Não quero nem sequer pensar em como ficou. Você me dirá se pode permanecer como está, mas só nas provas definitivas; ler o manuscrito é trabalho exaustivo demais e tudo ainda pode ser modificado. No final, acabei incluindo mais do que pretendia; sempre se faz isso, à medida que se desce mais fundo, mas receio que seja… besteira; ou então, como diria você, ‘Quattsch’ absurdo. E aí eles vão realmente cair em cima de mim! Quando a tempestade desabar sobre mim, fugirei para o seu quarto de hóspedes. Você, de qualquer maneira, há de encontrar no livro algo que elogiar, pois está tão do meu lado quanto os outros estão contra mim.

Acabo de receber sessenta páginas de provas, que lhe estou mandando pela mesma mala postal. Chego quase a sentir vergonha de explorá-lo dessa maneira, e você não precisará de meus préstimos recíprocos na biologia, pois pode confiar em seu próprio senso de discriminação e está lidando com a luz, e não com as trevas; com o sol, e não com o inconsciente. Mas, por favor, não tente resolver o assunto todo de uma vez; mande-me as provas em que tiver exercido sua censura em diversas bateladas, para que eu receba suas correções antes de despachar as minhas; devolverei o conjunto completo. Há um volume enorme de material novo, que assinalarei para você a cores. Evitei a sexualidade, mas a sujeira é inevitável e pede para ser humanamente tratada. (…) Oxalá alguém pudesse dizer se existe algum valor real nessa coisa toda.

45) 11/09/1899 – 213/ 118 B – Terminou o capítulo sobre a psicologia e o enviou para impressão.

“No tocante à psicologia, vou confiar em seu julgamento para saber se devo revisá-la mais uma vez, ou correr o risco de deixá-la em sua forma atual. O material onírico em si, acredito eu, é inatacável. O que me desagrada nela é o estilo, que foi totalmente incapaz de uma expressão digna e simples e resvalou para circunlóquios espirituosos no esforço de buscar as metáforas. Sei disso, mas a parte de mim que o sabe e sabe como avalia-lo é, infelizmente, a parte que não produz.”

“Certamente é verdade que o sonhador é arguto demais, mas isso não é culpa minha, nem contém nenhuma recriminação. Todos os sonhadores são igual e insuportavelmente argutos, e precisam sê-lo, porque estão sob pressão e porque a via direta lhes está barrada. Se você achar necessário, incluirei uma observação nesse sentido em algum lugar. A evidente argúcia de todos os processos está intimamente relacionada com a teoria do chiste e do cômico.”

46) 21/09/1899 – 215/ – segunda carta após um congresso frustrado por uma enchente que assolou várias cidades da região impedindo trens de circular e atrapalhando a circulação de jornais e do correio. Freud está profundamente deprimido em parte também pelo término do capítulo da psicologia.

“Aqui estou eu, após uma viagem terrível de trinta e duas horas pela água, novamente sentado no lugar de costume, com sete cadernos de provas diante de mim (…).

Não obstante, creio que minha autocrítica não foi totalmente injustificada. Em alguma parte dentro de mim há um gosto pela forma, uma apreciação da beleza como uma espécie de perfeição; e as frases tortuosas de meu livro do sonho, com seu desfile de orações indiretas e olhadelas oblíquas para as idéias, ofenderam profundamente um de meus ideais. Tampouco estou inteiramente errado em encarar essa falta de forma como um indício de domínio insuficiente do material. Você deve ter sentido exatamente a mesma coisa, e sempre fomos francos demais entre nós para que qualquer um precise fingir diante do outro. O consolo está na inevitabilidade: o livro simplesmente não saiu melhor do que isso. Entretanto, lamento ter que sacrificar meu leitor favorito e melhor dentre todos entregando-lhe provas, pois, como se pode gostar de uma coisa que se tenha que ler nas provas? Infelizmente, não posso prescindir de você como representante do Outro (???) __ e mais uma vez tenho outras sessenta páginas para você.”.

Minha realização central na interpretação aparece na parcela anexa: os sonhos absurdos. É surpreendente a freqüência com que você figura neles. No sonho “non vixit” sinto-me deleitado por ter sobrevivido a você; não é terrível sugerir uma coisa dessas, isto é, ter que explicitá-la a todos aqueles que compreendem?”

47) 27/09/1899 – 216

“Estou acelerando as provas porque soube que um rematado idiota, um tal de Ch. Ruths, está na trilha de alguma coisa e, em 1898, já anunciou uma análise dos fenômenos do sonho. Espero que, por volta de outubro, tudo já se tenha arranjado. Por ora, não tenho quase nada para fazer, logo, disponho das horas de folga para concluí-lo.”

Christoph Ruths (1851-1922) – aparentemente o trabalho a que Freud se refere nunca foi publicado.

48) 04/10/1899 – 217 – Ao que parece Fliess estaria escrevendo um livro ao mesmo tempo “Infelizmente, não poderei apadrinhá-lo, diz Freud, como você fez com o livro do sonho.”(…).

“Mas, em meu assombro, pergunto-lhe se você terá terminado tão depressa a ponto de seu Anônimo e meu livro do sonho poderem ver simultaneamente a luz do dia. E isso porque estou contando, no máximo, com um prazo de duas semanas; você terá o volume em sua escrivaninha no dia de seu aniversário. Só tenho que ler algumas provas finais, cerca de um terço do total. Talvez você não o esperasse tão cedo, mas, infelizmente, disponho de muito tempo. Estou tão desocupado que posso cuidar imediatamente de cada página.

Você descreveu com exatidão o sentimento doloroso da separação de algo que foi muito pessoal. Isso deve ter sido o que tornou esse trabalho tão insípido para mim. Agora gosto dele __ não muito, é claro, mas bem mais. Ele chegou até a ser aflitivo para mim, pois tive que ceder não só minha propriedade intelectual, como também emocional.”.

Numa carta adiante (11/10 – 219/121 A) comenta que é possível que uma teoria da sexualidade seja sucessora imediata do livro do sonho.

49) 27/10/1899 – 221/122B – Freud agradece as palavras amáveis de Fliess pelo recebimento do livro dos sonhos. Escreve:

“Faz muito tempo que me reconciliei com a coisa e aguardo o destino dela com… resignado suspense. Se o livro não chegou a tempo de estar em sua mesa de aniversário, como eu queria que estivesse, a razão foi uma circunstância que não levei em conta: a de que o correio só o aceitaria como encomenda postal. (…) Assim é possível que ele tenha chegado até você tarde demais; em outros aspectos, certamente chegará cedo demais. A propósito, ele ainda não foi publicado; somente nossos dois exemplares viram a luz do dia até o momento.”

Na carta seguinte, do dia 05/11 Freud anuncia que o livro havia saído no dia anterior. Então, a data de sua publicação é 04/11/1899.

Na carta de 07/11 refere que o livro acaba de ser posto na praça.

50) 07/05/1900 – 244 – Esta já é uma carta pertencente ao período do declínio da amizade e foi escrita no dia seguinte ao aniversário de Freud. Nela Freud se mostra chateado com a crítica a seu livro e fala de si como um judeu velho e meio surrado, isso aos 44 anos. Diz:

“Nenhum crítico (nem mesmo o estúpido Löwenfeld , o Burckhard da neuropatologia) consegue sentir mais claramente do que eu a disparidade entre os problemas e as respostas a eles fornecidas; e será uma justa punição para mim que nenhuma das regiões inexploradas da vida psíquica em que fui o primeiro mortal a pôr os pés receba meu nome ou obedeça as minhas leis.”

51) 12/06/1900 248/137 B – Esta é a carta, com a qual encerro esta longa visitação às marcas deixadas pela gestação e o parto do livro dos sonhos. É uma carta em que se percebe Freud como que sentindo de novo o perfume da vida. A vida lhe aparece agora com algo súbito (de novo, de inesperado, de surpresa?), com as manhãs e noites encantadoras pela profusão de flores que desabrocham, oferecendo-lhe suas cores e aromas.

É então que Freud pergunta a Fliess se ele julga que algum dia será possível ler numa placa de mármore na casa em que está em Bellevue, os dizeres:

“Aqui, no dia 24 de julho de 1895

O segredo do sonho

Se revelou ao Dr. Sigm. Freud”

Esta placa, com efeito, foi ali colocada em 06/05/1977. Data do sonho da injeção de Irma (23-24 de julho)