Nair Macena de Oliveira

Uma Criança é Espancada (Freud, 1919)

Chama a atenção de Freud, a frequência com que seus pacientes neuróticos relatam produzir fantasias do tipo: uma criança é espancada.

Essa situação imaginária é acompanhada de excitação sexual genital, canalizada à masturbação.

Considera tratar-se de uma fantasia masoquista. Não poderia ser denominada de sádica, pois quem bate não é a criança que desenvolve a fantasia.

A identidade de quem bate, inicialmente, é obscura. Não se trata de uma criança, mas de um adulto. Mais tarde, esse adulto indeterminado torna-se reconhecível como o pai.

Freud desdobra essa fantasia em três tempos:

Primeiro Tempo da Fantasia
O primeiro tempo é representado pela frase:
“O meu pai está batendo na criança.”
O amor dos pais tem que ser compartilhado com outras crianças à volta, mais velhas ou mais novas, e, por isso, elas são repelidas com toda energia selvagem característica da vida emocional nessa idade.
A idéia de o pai batendo nessa odiosa criança é, portanto, agradável, independente de ter sido realmente visto agindo assim. Significa:
“O meu pai está batendo na criança que eu odeio.”

Segundo Tempo da Fantasia

Entre o primeiro e o segundo tempo, ocorrem profundas transformações. A pessoa que bate continua a ser o pai, mas a criança que está sendo batida é a que produz a fantasia.

O segundo tempo é representado pela frase: “Estou sendo espancada pelo meu pai.”
O segundo tempo é o mais importante e o mais significativo de todos. Talvez nunca tenha tido existência real. Jamais tornou-se consciente. É uma construção da análise. Mas nem por isso, menos necessário.

A fantasia é acompanhada por alto grau de prazer.
Esse tempo da fantasia é uma expressão direta do sentimento de culpa da menina, ao qual o amor pelo seu pai, sucumbiu agora. A fantasia tornou-se masoquista. Um sentimento de culpa é o fator que converte o sadismo em masoquismo.

“O meu pai me ama” queria expressar um sentido genital, que devido à regressão, converte-se em: “O meu pai está me batendo” (estou sendo espancada pelo meu pai).
Esse “ser espancado” é agora uma convergência do sentimento de culpa e do amor sexual.
Não é apenas o castigo pela relação genital proibida, mas também o substituto regressivo daquela relação, e dessa última fonte deriva a excitação libidinal que se liga à fantasia a partir de então, e que encontra escoamento em atos masturbatórios. Aqui temos a essência do masoquismo. A organização genital defronta-se com o recalcamento, regredindo à organização pré-genital, anal-sádica.

Terceiro Tempo da Fantasia
O terceiro tempo assemelha-se ao primeiro tempo.
A pessoa que bate nunca é o pai. É deixada indeterminada como no primeiro tempo, ou se transforma num substituto do pai, tal como um professor. A criança que desenvolve a fantasia, não aparece. Em resposta às perguntas, a pessoa que tem a fantasia, responde: “Provavelmente estou olhando.”
O terceiro tempo é representado pela frase: “Uma criança é espancada.”
Há várias crianças presentes, geralmente são meninos, que são espancados, nas fantasias das meninas, mas nenhum é conhecido.

Essa característica de na fantasia das meninas, serem os meninos os que são batidos, aponta uma complicação no caso das meninas. Quando elas se afastam do amor incestuoso pelo pai, com o seu significado genital, abandonam com facilidade o papel feminino. Põem em atividade o seu ‘complexo de masculinidade’ e, a partir de então, querem apenas ser meninos.

A fantasia pode passar por elaborações e alterações: castigos e humilhações de outra natureza.

A fantasia liga-se agora a uma forte e inequívoca excitação sexual, proporcionando, assim, um meio para a satisfação masturbatória. A fantasia tornou-se sádica. No entanto, apenas a forma dessa fantasia é sádica, a satisfação que deriva dela é masoquista. Assumiu o investimento libidinal da porção recalcada e o sentimento de culpa. Todas as crianças espancadas pelo professor são substitutos da própria criança.

Freud ressalta que essa exposição da fantasia de espancamento pouco esclareceu a gênese do masoquismo. Parece haver confirmação de que o masoquismo não é a manifestação de uma pulsão primária, mas se origina do sadismo que foi voltado contra o eu, ou seja, por meio de regressão de um objeto para o eu.

Pode-se ter como certo que as pulsões com propósito passivo existem, contudo, a passividade não é a totalidade do masoquismo. A característica do desprazer também pertence a ele – um desconcertante acompanhamento para a satisfação de uma pulsão. A transformação do sadismo em masoquismo parece dever-se à influência do sentimento de culpa que participa do ato de recalcamento.

O recalcamento opera de três modos:
-torna inconsciente as conseqüências da organização genital,
-obriga essa organização a regredir ao anterior estádio sádico-anal,
-transforma o sadismo desse estádio em masoquismo, que é passivo e novamente, num certo sentido, narcísico.

Devíamos atribuir o sentimento de culpa, à instância mental que se instala como uma consciência crítica sobre o resto do eu.

Freud faz menção à paranóia:
“Pessoas que abrigam fantasias dessa espécie, desenvolvem uma sensibilidade e uma irritabilidade especial contra quem quer que possam incluir na categoria de “pai”. São facilmente ofendidas por uma pessoa assim, e desse modo (para sua própria tristeza), efetuam a realização da situação imaginada de serem espancados pelo pai. Não me surpreenderia se algum dia fosse possível provar que a mesma fantasia é a base do delirante espírito litigioso da paranóia.”

A Fantasia no Menino
Fantasia consciente: Ser espancado pela mãe.
Estádio precedente inconsciente:“Estou sendo espancado pelo meu pai.”
Significa ser amado, num sentido genital, mas de forma regressiva.
A forma original da fantasia masculina inconsciente:“Sou amado pelo meu pai.”

A fantasia é passiva e deriva de uma atitude feminina em relação ao pai.

Tanto na menina como no menino a origem da fantasia de espancamento é a ligação incestuosa com o pai. No caso do menino, a fantasia parte da atitude invertida, na qual o pai é tomado como objeto de amor.

O menino burla o seu homossexualismo ao reprimir e remodelar a fantasia inconsciente.

Em sua posterior fantasia consciente há uma atitude feminina sem uma escolha homossexual.

O menino que tentou escapar de uma escolha homossexual de objeto, e que não mudou o seu sexo, sente-se como uma mulher nas suas fantasias conscientes e dota as mulheres, que o espancam, de atributos e características masculinas.

Leopold Von Sacher-Masoch (1835-1895), austríaco, foi além de professor de história, escritor de projeção mundial.

Celebrizou-se como autor maldito de romances onde se viria a descobrir um estranho traçado erótico, que por derivação de seu sobrenome, denominou-se ‘masoquismo’.

Narrações como a de ‘Vênus das Peles’, imortalizaram Masoch, pelo pormenorizado mostruário de fantasias eróticas associadas à crueldade e à dor. Severino e Wanda são os protagonistas de Vênus das Peles.
Severino lembra:

“De pequenino que experimentava pelas mulheres um terror inexplicável…precisamente pelo impaciente interesse que me inspiravam. A abóbada cinzenta, a semiobscuridade de uma igreja sobressaltavam a minha alma, e uma agonia solene apoderava-se do meu ser frente aos altares resplandecentes das santas imagens. Em troca, deslizava furtivamente, como para gozar um prazer proibido, para junto de uma Vênus de gesso que se encontrava na biblioteca do meu pai, e ante ela me ajoelhava, dirigindo-lhe as orações que me haviam ensinado, o padre-nosso, a ave-maria, o credo. Uma vez levantei-me da cama para a ver; a luz da Lua iluminava-se e envolvia a Deusa numa fria claridade pálida. Ajoelhei-me frente a ela e abracei os seus pés gelados, como havia visto fazer as aldeães aos pés do Crucificado. Um desejo ardente e invencível apoderou-se de mim. Pondo-me de joelhos, abracei o seu formoso corpo frio, beijei os seus lábios, e pareceu-me que a deusa, com um braço levantado, me ameaçava.”

“Eu fizera então treze anos…Uma minha tia afastada, a condessa Sobel, veio a casa dos meus pais. Era uma bela e majestosa mulher, de riso sedutor; mas eu detestava-a, porque tinha na família a fama de uma Messalina, e tratava-me com a maior insolência e maldade. Sucedeu que um dia os meus pais foram à capital. A minha tia resolveu aproveitar-se da ausência deles para executar a sentença que havia decretado contra mim. De rompante, entrou, vestida com a sua Kazabaika (jaqueta de cor, de veludo, guarnecida de pele, que as mulheres eslavas usam), seguida da cozinheira, da sua filha, e da rapariga que eu havia desdenhado. Sem me dizer nada agarraram-me e, apesar da minha violenta resistência, ataram-me os pés e as mãos; depois do que, com o seu riso perverso, a minha tia levantou as mangas e começou a espancar-me com uma vara, tão fortemente que o sangue correu e, apesar da minha coragem, gritei por misericórdia. Então fez com que me desatassem, mas tive de ajoelhar-me ante ela para lhe agradecer o castigo que me inflingira e para lhe beijar a mão. Agora verá o louco despropósito de sensação. Sob a vara da bela e lasciva mulher, que me aparecia, com a sua jaqueta de peles, como uma deusa, colérica, a sensação da mulher despertou em mim pela primeira vez, e desde então a minha tia pareceu-me a mulher mais atrativa da terra.”

No decorrer da narração, Severino se submete à condição de escravo de Wanda, dispondo-se a todo tipo de tortura física e a entregar sua vida a ela.
Em, As Pulsões e seus Destinos (Freud, 1915), constam as seguintes vicissitudes a uma pulsão:

-reversão ao seu oposto,
-retorno em direção ao próprio eu do indivíduo,
-recalcamento e,
-sublimação.

Freud refere que podemos considerar essas vicissitudes como modalidades de defesa contra as pulsões.

Quanto ao sadismo-masoquismo, a reversão afeta apenas a finalidade da pulsão. A finalidade ativa(torturar) é substituída pela finalidade passiva(ser torturado).

O retorno de uma pulsão em direção ao próprio eu do indivíduo se torna plausível pela reflexão de que o masoquismo é, na realidade, o sadismo que retorna em direção ao próprio eu do indivíduo. A observação analítica, não nos deixa duvidar de que o masoquista partilha da fruição do assalto a que é submetido. A essência do processo é, assim, a mudança do objeto, ao passo que a finalidade permanece inalterada. Não podemos deixar de observar, contudo, que, nesses exemplos, o retorno em direção ao eu do indivíduo e a transformação da atividade em passividade convergem ou coincidem.

No caso do par de opostos sadismo-masoquismo, o processo pode ser representado da seguinte maneira:
(a) O sadismo consiste no exercício de violência ou poder sobre uma outra pessoa como objeto.

(b) Esse objeto é abandonado e substituído pelo eu do indivíduo. Com o retorno em direção ao eu efetua-se também a mudança de uma finalidade pulsional ativa para uma passiva.

(c) Uma pessoa estranha é mais uma vez procurada como objeto; essa pessoa, em conseqüência da alteração que ocorreu na finalidade pulsional, tem de assumir o papel do sujeito.

O caso (c) é o que se denomina de masoquismo. Também aqui a satisfação segue o caminho do sadismo original, voltando o eu passivo, em fantasia, ao seu papel inicial, que foi agora, de fato, assumido pelo sujeito estranho.

A psicanálise pareceria demonstrar que inflingir dor não desempenha um papel entre as ações intencionais originais da pulsão sádica. Uma criança sádica não se apercebe de que inflige dor ou não, nem pretende fazê-lo. Mas, uma vez ocorrida a transformação em masoquismo, a dor é muito apropriada para proporcionar uma finalidade masoquista passiva, pois as sensações de dor e outras sensações desagradáveis, produzem excitação sexual e uma condição agradável, em nome da qual o sujeito experimenta de boa vontade o desprazer da dor.

Transitivismo
História do Conceito

-O transitivismo nas psicoses foi estudado pela psiquiatria clássica , no fim do século XIX, na escola alemã.

-Transitivismo clássico: vetorizado de um sujeito suposto psicótico a seu complemento.

-O transitivismo como Wallon o elaborou em sua obra: As Origens do Caráter na Criança(1934). O mérito de Wallon é o de haver aproximado o transitivismo “mórbido” do transitivismo “normal”, a criança faz a prova entre dois e três anos. Graças a Wallon, o transitivismo não é somente mais um conceito da psicopatologia, é também um conceito que participa da descrição do desenvolvimento normal do “caráter” na criança (estágios de personalidades intercambiáveis). Na época, a dimensão genética era pregnante: “O transitivismo precede imediatamente o instante em que a criança, saberá distribuir sem erro, entre ela e o outro, os estados e atos que ela percebe.”

-Lacan, em O Estádio do Espelho Como Formador da Função do Eu(Je), faz alusão ao transitivismo. Esclarece a elaboração psicanalítica insuficiente e a limitada articulação do conceito com os mecanismos de identificação e, por via de fato, com as relações do sujeito com tudo o que lhe é outro.

Psicopatologia Infantil
-J.Ajuriaguerra, abordou o transitivismo da criança no Tratado de Psiquiatria da Criança. O autor desloca a noção para o registro dos “transtornos de distinção de si”.

-Heuyer e seus colaboradores, na Salpétrière, descreveram um transitivismo patológico, que o tomaram como uma despersonalização.

-Winnicott, da psicanálise anglo-saxônica, cita um caso que evoca o transitivismo, mas não faz alusão. “Na excitação de uma experiência ligada a um bom objeto, acontece que a criança morde: o objeto será então sentido como um objeto que morde” – Processus de Maturation Chez l’enfant.

-Aulagnier, o artigo: “Demanda e identificação”, 1968, a autora aborda o que chama de “identificação primária”, insistindo em sua relação com a demanda, mas define tal relação como puramente unívoca, e não aborda, de modo algum, em referência ao transitivismo.

Segundo Bergès e Balbo(2002), todas essas aproximações sucessivas, procedem a uma redução dos fenômenos observados à única bipolaridade, à relação puramente unívoca.

Foi dada por Lacan uma primordialidade ao discurso, e não ao objeto, para descrever e explicar os fenômenos psíquicos.

O discurso permite intercalar entre aquele que é seu agente e o que esse agente produz desse discurso, o grande Outro, o inconsciente. A partir de então, os fenômenos observados jamais serão bipolarizáveis: serão sempre referidos a pelo menos três termos. Essa ternariedade mínima obriga, certamente, a pensar o sujeito e o objeto, mas a pensá-los em referência ao grande Outro, e portanto, em referência à função da divisão que ele comanda e pela qual sujeito e objeto são marcados. Na falta disso, uma bipolaridade, que exclui a não-especularidade, insiste.

Etimologia do termo transitivismo
-Na língua francesa: transitivismo é o que é passageiro, mutável.

-Latim transitivus: de transire, “passar”.

-Filosofia: aquilo que modifica, age sobre outra coisa que não o agente.

-Lógica: referência a uma relação ou a uma operação que, quando liga um primeiro termo a um segundo, e esse último a um terceiro, liga do mesmo modo o primeiro termo ao terceiro. Ex: A=B, B=C e A=C.

-Geologia: rochas ou terrenos que formam a passagem de um terreno a um outro de formação mais recente.

-Verbo: transitivo é um verbo que rege seu complemento sem intermediário, por uma passagem direta do sujeito ao objeto. É todo verbo cujo enunciado pede um complemento de objeto. Verbos transitivos são aqueles que exprimem uma ação que, do sujeito, é transmitida diretamente ao complemento.

A Satisfação Masoquista
Meu semelhante, meu próximo, bate sua perna num móvel. Sinto* uma dor e o demonstro: digo “ai!” e esfrego dolorosamente minha perna. Por que, afinal, vou lhe transitivar o que experimento?

O masoquismo através do qual experiencio a dor – mesmo se, além do mais, não a sinto, enquanto o sadismo supõe que a dor é experienciada – lembra-me inconscientemente o modo natural como se constituiu meu masoquismo. Eis o que poderia explicar por que vou transitivar por um signo qualquer, para* aquele que experimentou verdadeiramente uma pancada da qual ele não se queixa.

Obs.: – *os autores utilizaram o verbo ressentir e não sentir. Ressentir, segundo Lê Petit Robert, é provar vivamente, ser afetado, ser sensível ao que acontece com o outro, experienciar as conseqüências penosas de uma coisa física: as conseqüências de uma queda, de privações, etc. Em português, quanto ao verbo ressentir, prevalece o sentido de ficar ressentido, magoar-se, melindrar-se.

– *Vers, em francês, com sentido de em direção a, ressaltando-se então, na operação do transitivismo, que algo passa de um sujeito para outro. Da mesma forma, propriamente falando, não se transitiva com alguém, mas para alguém.

Transitivo não a dor experimentada mas o masoquismo, meu masoquismo: transitivismo que, apartir de então, tem por meta limitar o masoquismo do outro, e não a sua dor. Através desse masoquismo transitivado para o outro, transitivo – e isso é essencial – a satisfação masoquista correspondente.”

“A dor, não é senão a nomeação secundária de um mecanismo primário: a satisfação masoquista. É porque há uma satisfação a partilhar que o outro fala dela, manifesta-a, leva-a em consideração.

No caso da criança vítima de uma agressão, o transitivismo vai lhe permitir substituir seu masoquismo real por um masoquismo simbólico que vai dar limites a esse masoquismo real. Esses limites são produzidos por um recalcamento. O masoquismo simbólico do discurso mantido pela mãe vem ordenar a dor da criança à função fálica. O dizer da mãe, ao substituir o sofrimento que ela supõe ter sido experienciado pelo filho, torna simbólico esse sofrimento e sua experiência: é nesse sentido que a fala da mãe é recalcante e impõe limites.

No caso da criança que telefona ao “SOS” criança para se queixar de ter sido violentada, ela não pode senão ter feito a hipótese de que a pessoa que recebe seu apelo traga ela mesma a demanda de ser socorrida de um maltrato sofrido anteriormente, o que a reenvia, sem dúvida, a uma repetição. De fato, ela não se ocupa senão de crianças espancadas, mas também da criança espancada que ela foi realmente ou fantasmaticamente. Esse é o motivo pelo qual ela pode estar interessada nisso, e o modo pelo qual ela vai fazê-lo não deixa de lembrar a elaboração de Freud em seu texto “Uma criança é espancada”.

Freud desdobra a fantasia em três tempos:

1-Meu pai bate na criança que eu odeio
2-Meu pai me bate, portanto meu pai me ama
3-Uma criança é espancada: não se sabe nem quem bate, nem quem é batido, nem por quê.

É esse último tempo que aparece no tratamento.
Freud refere que o segundo tempo é totalmente inconsciente e deve ser reconstruído pela análise, aquele do golpe suportado por amor. Freud faz a hipótese de um saber inconsciente no analisante, que nos permite aproximar o transitivismo dos três tempos que ele fala.

No segundo tempo do transitivismo, aquele pelo qual o ódio que leva uma criança a obrigar uma outra a sofrer o que não experienciou, reinvia implicitamente ao amor que a mãe não deve ter senão por aquele que transitiva, e não por aquele que deve sofrer. É sempre porque minha mãe me ama que o outro deve sofrer por um golpe do qual ele, todavia, não tinha experimentado nada.

A Hipótese de Um Saber e a Identificação
A mãe mostra-se afetada quando o filho está em perigo de cair, ou ao vê-lo levar um tombo e não apresentar reação, ela não hesita em lhe exprimir esse afeto de dor de modo demonstrativo, articulado e demonstrado na fala. O que ela experiencia e comunica é uma certeza, porque ela sustenta seu afeto em um real. É porque seu afeto se sustenta em um real que seu filho lhe dá razão a partir do que ela lhe diz.

O transitivismo não é somente o que a mãe experiencia e demonstra, é também o processo que ela introduz quando se dirige a seu filho, porque faz a hipótese de um saber nele, saber em torno do qual seu apelo vai circular, como em torno de uma polia, para a ela retornar sob a forma de uma demanda; demanda que supõe ser a de uma identificação de seu filho ao discurso que ela lhe dirige. Essa circulação descreve um processo muito geral que tem relação com o acesso ao simbólico.

Quando vem se colocar na posição do filho, a mãe lhe exprime que ele deveria sentir uma dor; caso contrário, ele não a sentiria. O filho deve então vir à posição de sua mãe para dizer “ai!”. Assim, nessa posição que ela acaba de deixar – da qual o filho acaba de desaloja-la, assumindo-a – ele se atribui a hipótese de sua mãe, a fim de toma-la por sua própria conta. Ele se coloca na pele de sua mãe – que disse “ai” quando não havia sentido nada; ele não toma somente a hipótese de sua mãe por sua própria conta, mas também ratifica. Identificando seu “ai” ao de sua mãe, ele autentica o dizer dela. Nessa posição em que é afetado, ele não sofre porque ela teria sofrido, mas porque toma por sua própria conta a hipótese que ela tinha feito, e segundo a qual ele teria sofrido. É uma colocação em jogo do afeto, que é simbólica e que não tem nada a ver com a identificação histérica imaginária. Não há, de modo algum, essa contaminação do afeto, da qual Freud fala a propósito da identificação histérica, mas a apropriação de uma hipótese. É de um jogo de afetação que se trata.

Transitivismo e Corpo
No transitivismo esse processo de identificação e acesso ao simbólico, se passa pelo corpo, uma vez que este está envolvido em algo experienciado que o afeta de outro modo, diferente de um sentimento moral. O corpo é esse lugar de receptação através do qual o mundo toma forma e consistência para a criança. O acesso ao simbólico, que representa a identificação da criança ao discurso da mãe, concerne ao corpo, na medida em que ele não é somente corpo imaginário, mas também corpo de linguagem, de significantes e de letras.

Através do discurso, ao qual demanda que seu filho se identifique, a mãe dá corpo a essa criança; a criança toma corpo, e o que esse jogo tem em vista é colocar em jogo esse corpo idealizável como UM. O que a mãe lhe diz criou uma distância. Quando a mãe intervém ela faz barragem entre uma virtualidade ilimitada da atividade do filho e o que ela lhe propõe. Ela demanda que ele renuncie à idéia de que, ao contrário dela, ele poderia não experimentar a menor dor, sofrer qualquer ferimento que fosse. Ela lhe demanda que renuncie à onipotência de um falo imaginário.

Quando a mãe vem através do seu transitivismo, acolher as pulsões, ela substitui o objeto de necessidade pelo da pulsão e, ao falar, introduz esse objeto na demanda.

É a um falo, ao qual ela mesma teve que renunciar, que a mãe demanda ao filho renunciar, forçando-o a identificar-se a seu discurso. Esse falo é representado pela idéia, pela ilusão de que se poderia suportar as dores mais extremas. Se reconhece essa renúncia no fato de que a mãe, supõe que o corpo formula demandas as quais o filho, em razão de sua onipotência infantil, não está sempre pronto para responder, o que o colocaria em perigo de morte.

Essa competência da mãe em sentir corporalmente o que ela supõe que seu filho experimenta, é simbólica e não imaginária, porque testemunha a existência da função paterna no discurso transitivista da mãe. A mãe através de seu discurso, inscreve o corpo de seu filho em um corpo de linguagem, constituído de significantes e de letras.
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Bibliografia:
BERGÈS E BALBO, Jogo de Posições da Mãe e da Criança – Ensaio sobre o transitivismo, CMC Editora, 2002, POA.
FREUD, Obras Completas.
MASOCH, Léopold Sacher-, A Vênus das Peles, Edição “Livros do Brasil” LISBOA.