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5 DE JULHO DE 2004

Entrevista com Conceição Beltrão Fleig

“A tendência é transformar a palavra individualidade em um palavrão, como algo indesejável”, opina a psicanalista Conceição Beltrão Fleig. Ela diz isso a propósito da contribuição da psicanálise para ajudar os sujeitos a viverem suas individualidades ao mesmo tempo que constroem uma sociedade. Desse modo, talvez seja possível unir o sujeito ao enunciado, divisão que se manifesta, por exemplo, quanto ao mercado, na dificuldade de encontrar “alguém” do outro lado do balcão e dele receber respostas educadas, em bom português. “Ali não há sujeito, não há outro, apenas um enunciado”, observa. Ela lembra que é fundamental o reconhecimento, pelos indivíduos, de um campo simbólico pré-existente ao relacionamento entre eles, permitindo que o outro seja compreendido como uma referência, e não como um espelho. Isso lhes asseguraria a singularidade necessária para enfrentar os efeitos da sociedade de massa e estabelecer a convivência necessária para “amar e trabalhar” que, na definição de Freud, podem viabilizar uma vida saudável. Conceição Beltrão Fleig é analista membro da Associação Lacaniana Internacional, com sede em Paris. Atualmente trabalha como psicanalista em consultório. A professora tem um artigo publicado no livro Imigração e Fundações. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 2000, do qual é uma das organizadoras. Além da formação permanente em Psicanálise pela Associação Lacaniana, Conceição Beltrão Fleig é especialista em Psicologia Clínica pelo Conselho Regional de Psicologia (CRP). Ela foi também coordenadora da Clínica de Psicologia da Unijuí. A entrevista foi concedida por e-mail.

1. Quem e por que pode e quer procurar hoje o divã psicanalítico?
O início de uma análise ocorre em função da repetição dos sintomas, das inibições e da angústia. A procura do psicanalista, cuja escolha pode ter sido feita bem antes, se dá justamente quando este transbordamento dos mecanismos psíquicos nos órgãos de choque no corpo, na motilidade ou nos processos do pensamento torna insuportável o andamento do dia a dia ou a relação com o próprio corpo, colocando em risco os projetos ou até mesmo a vida. Quando em 1886 Freud fez seu estágio em Paris com Charcot, se inclinava para o estudo da anatomopatologia, mas seu interesse foi capturado pelos sintomas histéricos, portanto, o processo de construção da psicanálise se deu nesta borda, ou seja, a partir de uma patologia que escapava a qualquer apreensão diagnóstica pelo orgânico e que, pelo avanço científico da época também não podia mais ser considerada como possessão, mas que incidia no corpo como, por exemplo, as anorexias, as afasias, as contraturas ou as paralisias, conforme os quadros clínicos descritos neste período. Retomei os primórdios da psicanálise para situar seu campo de trabalho. Atualmente foram dados outros nomes para as mesmas patologias isoladas por Freud. A histeria de angústia é chamada de síndrome de pânico, a neurose obsessiva é chamada de TOC, e assim por diante.

2.Qual é a contribuição de Lacan para a compreensão do “outro” e qual é a atualidade de seu pensamento em uma sociedade de mercado global como a que vivemos?
Como a pergunta diz respeito a Lacan, então de saída é necessário lembrar que ele propõe uma diferenciação entre o outro e o Outro e através desta convenção de escritura distingue respectivamente o outro como uma primeira dimensão de alteridade, o semelhante, como o parceiro de nosso cotidiano cuja relação com cada um de nós, tanto do lado dele como do nosso é determinada por uma ordem radicalmente anterior e exterior a nós mesmos (Outro). Podemos localizar esta diferença através da importância dos ritos nas culturas, nos quais as passagens e as relações entre as pessoas, entre eu e outro são referidas a uma instância terceira, uma lei que via de regra é sagrada frente a outras pessoas que dão seu testemunho. Mas o reconhecimento de que tenho alguém, de que ele é um outro e não um espelho de mim mesmo só se dá se eu puder ter entre nós dois esta referência a um campo simbólico que pré-existe a nós. E isto tem de vir pelos nossos pais, caso contrário quem está a meu lado pode ser apenas um monte de carne ou ser tomado por mim como uma ameaça pura e simples no espelhamento de meus próprios pensamentos. Esta diferenciação é um dos pilares da distinção entre a neurose e a psicose e Lacan através do estudo da paranóia nos propõe a reflexão do que possa ser uma paranóia social e suas implicações nos fenômenos de massa. No que se refere ao mercado global, tenho sentido falta de poder telefonar ou ir a um balcão e encontrar “alguém” do outro lado, pois nas respostas bem educadas e em bom português não tem ninguém. Ali não tem sujeito, não tem outro, apenas um enunciado. Poder falar disso é uma conseqüência do trabalho de Lacan.

3. Que práticas da psicanálise estão já ultrapassadas e quais são necessárias reinventar?
Esta forma de tratamento psíquico teve suas origens na hipnose e na sugestão, mas Freud logo as abandonou em função de seu trabalho com Breuer, com o qual elabora os grandes traços da clinica da histeria, e também em função da dissimetria surgida na relação mantida com Fliess, nomeada posteriormente de transferência. A psicanálise é reinventada por cada psicanalista em cada sessão com seu analisante. Este é um princípio que torna cada processo de análise singular uma vez que a psicanálise se funda no conceito de inconsciente e o trabalho analítico se dá através de suas formações (os sonhos, os atos falhos, os sintomas e os ditos espirituosos) que insistem a cada vez que o analisante fala endereçado a seu analista. Ao estudarmos os textos de Freud de maneira cronológica, assim como as correspondências trocadas com seus alunos nós podemos acompanhar a invenção freudiana e sua permanente indagação. Ele não vacilava, de um escrito para outro, em colocar a prova suas descobertas, abandonando-as, retomando-as. Portanto, se falamos de tratamento psicanalítico significa que estamos trabalhando com o inconsciente e que este se dá na relação transferencial com o analista, e isto sim é reinventado a cada pontuação, escansão e interpretação.

4. De que forma a psicanálise pode ajudar o sujeito a viver desde sua individualidade e ao mesmo tempo construindo uma sociedade?
A tendência é de transformar a palavra individualidade em um palavrão, como algo indesejável. Não vou entrar no rigor etimológico do indiviso, mas pensar aqui de forma laica que é absolutamente necessário o individual, o privado para que haja uma vida possível com as outras pessoas. Se formos novamente a Freud, certa feita ele escreveu que a saúde era a possibilidade de amar e trabalhar. Esta singularidade é a única coisa que pode fazer barreira ao efeito de massa e nos colocar na posição de convivência.

5. O individualismo é um desafio para os psicanalistas hoje?
Sim, tomando a outra possível acepção do termo “individuo-indiviso” considero que o grande desafio se encontre na psicose infantil e no autismo, aí sim encontramos o indiviso. Principalmente nas questões da infância devemos nosso tributo ao psicanalista Jean Bergès que através de sua extensa pesquisa juntamente com Gabriel Balbo situam de forma pontual a diferença entre estas duas formas de patologia. Mas partem de que para que haja dois (na relação mãe-filho) é preciso que a mãe faça a hipótese de que seu filho pode fazer uma hipótese. Assim já serão dois. Quando a mãe faz uma frase interrogativa para seu recém-nascido já supõe que ali haja um outro que possa lhe dizer algo diferente do que ela mesma poderia dizer.

6. Quais são os principais desafios na formação do psicanalista e na pesquisa sobre psicanálise?
A teorização de Freud teve um intuito clínico, o sintoma e um projeto, a formação de psicanalistas, mas uma das grandes dificuldades para um analista é sua própria resistência ao inconsciente que está em cheque a cada sessão com cada analisante. Por isso, para que aí possa haver um psicanalista é preciso que ele mesmo passe pelo processo de sua análise e que em sua análise de controle se permita examinar seu desejo enquanto analista. Charles Melman propõe que a formação do psicanalista consiste em que sejam quais forem as particularidades de seu gozo, ele não as tome como universal e desta forma não será levado a indicar ao analisante uma forma reguladora do gozo, mas de relativizar e continuar o próprio caminho. Quanto à questão da pesquisa, preferiria dizer pesquisa em psicanálise e a esse respeito, cada conceito e cada quadro clínico é objeto permanente de trabalho para aqueles que se dedicam à clínica. Não se pode falar de teoria psicanalítica dissociada de tratamento freudiano, pois a pesquisa e a construção deste campo se deu sempre a partir do trabalho com os pacientes e análise de cada analista. Preservar isto é um grande desafio, pois a transformação da psicanálise em mero conhecimento indica a resistência ao próprio inconsciente.

7. A geração atual, analisada por Almeida- Tracy (Rio de Janeiro, Rocco, 2003) é considerada com características de nomadismo onde tudo é transitório. Em entrevista a IHU On-Line, Maria Isabel Mendes de Almeida, uma das autoras disse: “A psicanálise, por exemplo, deve lidar com uma geração que não valoriza o autoconhecimento, o mundo interno. Uma geração para a qual os valores não significam nada. A maneira de abordar o sofrimento, as angústias têm que mudar, porque os jovens são mais corporais na sua dor, e não reflexivos”. Qual é sua opinião a esse respeito?
Inicialmente gostaria de fazer uma ressalva, falar em uma geração como um grupo e sob o efeito próprio desse fenômeno específico das identificações histéricas ou por contágio pode nos levar a discussão sobre a formação de gangues, a música, a moda etc. Este é um dos possíveis recortes de abordagem. No que se refere a cada adolescente com os quais tenho trabalhado e que buscam fazer sua análise, a maior parte é inicialmente encaminhada pelos pais, alguns constroem seu próprio pedido e se mantém por seu próprio arbítrio. Neste caso tenho me deparado com adolescentes que pensam muito e seriamente não apenas sobre as suas questões no mundo, mas sobre o próprio meio em que vivem. Na maior parte das vezes ficam atolados, volto a dizer, nas suas inibições, nos seus sintomas e na angústia quando começam a se encontrar com suas neuroses infantis no encaminhamento da efetividade de seus atos. Tenho trabalhado este aparente empobrecimento da reflexão e o aparecimento do corporal pela via que Lacan nos propõe no seminário A angústia. Quando estamos frente a ausência de possibilidade da dor psíquica e do luto, necessários e não feitos estes aparecem então sob a forma do acting-out e da passagem ao ato, e neste caso, como se costuma dizer, é o corpo que padece. Quanto aos adolescentes institucionalizados, alguns com graves patologias psíquicas, considero que a inexistência de futuro é absolutamente enlouquecedora.

Aurélio Agostinho (354-430): Conhecido como Agostinho de Hipona ou Santo Agostinho, bispo católico, teólogo e filósofo. É considerado santo pelos católicos e doutor da doutrina da Igreja. (Nota da IHU On-Line)