Entrevista com Conceição Beltrão Fleig
realizada por Denise Cini para a
Biblioteca Freudiana de Curitiba – setembro 2009

1. A primeira vez em que se falou em crianças hiperativas (hipercinéticas) foi em 1923. A hiperatividade seria uma nova forma de “sintoma” que apareceu a partir das mudanças que ocorreram na família, distanciando-a do modelo tradicional?
Conforme Bergès, no livro O corpo na neurologia e na psicanálise, a primeira notícia de tal diagnóstico ocorre em 1923, após uma epidemia de gripe e encefalite (conhecida como gripe espanhola) que assolou a Europa e também a América, o Brasil, depois da Primeira Guerra mundial. O alemão Von Economo introduziu o termo ao se referir a adultos e crianças que apresentavam, como seqüelas da encefalite, comportamentos com desordem de movimentos, incapacidade para parar em um lugar, dificuldade de concentração, de memória e de aprendizagem. Ou seja, a síndrome das crianças hipercinéticas era específica do período após a encefalite. É um diagnóstico vinculado de saída a um perigo de morte.
Considero absolutamente apropriado nomear a hiperatividade como um sintoma, mas não obrigatoriamente vinculado a uma estrutura em específico. Além disso, a partir da prática como psicanalista, e de nossa experiência em reparar nos detalhes, hiperativo já é um termo muito amplo na medida em que engloba vários fenômenos, como atenção, concentração etc. O paciente psicótico em surto, fenomenologicamente pode apresentar um quadro de hiperatividade conforme o descrito, uma criança com fobia também, assim como em quadros de depressão que não se caracterizam exclusivamente pelo humor de tristeza. Entretanto, no que se refere à pergunta, evidentemente as mudanças culturais engendram modificações psíquicas e a organização e o imaginário familiar se alteraram de forma radical. Tanto a criança como a família em si vive uma nova dimensão de tempo. Por exemplo, o século XXI, para efeitos de marketing, iniciou um ano antes, em 2000, e no Centro George Pompidou, em Paris, encontramos a exposição que inaugura antecipadamente o século e que se chama “O tempo rápido”, o tempo colocado em uma dimensão de rapidez como agente destruidor. É algo bem significativo. Outro exemplo, assistir um filme de ação, experimentem contar 1, 2, 3… a cada cena. Vocês vão encontrar uma constância, a cada 5 ou 6 a cena vai mudar. O pensar está impedido. A rapidez e a alteração constante é uma característica de nosso tempo. A família não está fora disto. E para concluir apenas uma ressalva: quanto mais rápida a dimensão do tempo, mais próxima está a morte. É como a outra face de uma mesma moeda, a total recusa da finitude, do limite. Diria que o movimento “perpétuo” é uma ambição de nosso tempo e a angústia seu avatar.

2. Observa-se o aumento do uso da anfetamina Ritalina para medicar as crianças hiperativas. Além disso, os pais colocam-nas em atividades direcionadas para compensar o descontrole corporal. Elas não são escutadas. O que pensa sobre isto e sobre o fato dos educadores e terapeutas reclamarem pela falta de sentido na agitação?
Começo pelo que conta uma mãe, cujo menino de 8 anos lhe pergunta do porquê ele não ser como seus amiguinhos na escola. A mãe indaga: E por que se considera diferente? “Porque eu não tomo ritalina como meus amigos”. O relato pode se prestar como uma piada, mas o surpreendente é que se trata de uma história verídica.
A ritalina, que é uma anfetamina, entrou no campo tão combatido da automedicação no sentido de que a vizinha sugere, os pais solicitam aos pediatras, e já ouvi casos da própria escola sugerir para as famílias dos alunos que incomodam, que não param, antes mesmo de se perguntar o porquê dele não parar. Ou seja, uma agitação na criança é respondida com uma resposta categórica, fechada, e com uma solução.
A atividade física para uma criança é sempre bem-vinda, mas não a solução no caso referido. Desde os gregos, a educação do corpo era considerada uma parte fundamental da formação. Mas a educação do corpo era acompanhada da retórica, a arte de falar para convencer o outro (os modos de discursar). Ou seja, se é dado à criança o espaço da retórica, ela inscreve uma posição fálica em relação ao mundo. Tem um endereço próprio, o corpo, o nome, e pode se endereçar. O endereço é uma referência, quem não tem referência perambula pelo mundo.
Quanto à formulação de que falta sentido na agitação, posso simplesmente referir o que encontramos no seminário de Françoise Dolto, Psicanálise de crianças. Relata que uma criança estava hospitalizada e que recebia as visitas de sua mãe que brincava muito com o filho sem lhe dirigir palavra alguma. Quando a mãe saia, a criança convulsionava e na convulsão repetia os movimentos da brincadeira que a mãe desencadeava. É um relato muito forte e que podemos amparar no que Freud desenvolve no “Projeto” (1895) quando se refere a passagem do que seja da ordem da percepção para o campo da representação psíquica. O que poderia dizer aos professores é de sentarem e conversarem com o aluno antes de emitir qualquer diagnóstico calcado no que assistem.

 

3. A agitação não é o mesmo que a ação. A ação reforça a teoria sexual infantil, isto é, o recalque da ação sustenta a teoria sexual infantil. Que relação dá para se fazer entre a agitação e as teorias sexuais infantis?
Penso que posso responder a sua pergunta me reportando a um momento clínico. Que palavras acompanham a agitação? Se lhe pedir para falar, agita-se mais ainda, o que está movimentando este estado de angústia? Vejam bem que não estou comunicando estas perguntas ao paciente, pois são hipóteses que estou construindo. A agitação pode muito bem ser uma defesa em relação ao significante e, neste caso, convocar a produção de significantes entorna mais ainda o caldo. Mas na sequência das sessões o temor que se apresenta é o da castração, que a teoria sexual infantil tenta evitar. A morte (como modelo princeps da castração) representa o temor e ao mesmo tempo o desejo de morte, se seguimos Freud em Além do princípio do prazer. O cotidiano clínico está aí para nos mostrar esta vinculação com a teoria sexual infantil, tanto na análise de crianças como de adultos.

4. O psicanalista J Bergès, numa conferência em Madri, em 1995, disse que o que está em causa na precipitação dos hipercinéticos, na pressa em terminar antes de ter começado, é o último minuto, a morte. A falta de atenção e a excitação motora serviriam de remédio contra a pulsão de morte. Poderia exemplificar o que ele disse?

O testemunho de minha clínica com crianças cujo encaminhamento se refere ao estado descrito em sua pergunta é de que pelo movimento tenta conter a morte. Uma violência que irrompe, porque essa hiperatividade é, quando não há outros constrangimentos educativos, e o não recalcamento da pulsão de morte, ao mesmo tempo uma forma de conter a morte e uma forma de exteriorização da pulsão de morte, mas que aí não encontra uma vertente simbólica. Ainda no seminário A atualidade das teorias sexuais infantis, Bergès e Balbo propõem que “a teoria sexual infantil obriga o sujeito a oscilar entre a pulsão de vida e a pulsão de morte. E do lado da pulsão de vida não é o gozo o que conta, mas o funcionamento”. Em Além do princípio do prazer, Freud apresenta a pulsão de vida como perturbadora e que traz de forma descontínua as tensões, cuja liquidação é sentida como prazer, então o princípio do prazer parece estar a serviço da pulsão de morte.
Freud diferencia dois tipos de recalcamento: o recalcamento das representações e o recalque originário. Mas ao longo da obra, Freud propõe um outro recalcamento, que nomeia de recalcamento orgânico, ou pulsional orgânico, e que, em geral, dizemos tratar-se do lado biológico em Freud. Mas esse recalcamento é o fruto do processo educativo ou civilizatório. Não é o recalcamento particular que cada sujeito sofre em função de seu grupo familiar, mas é aquele que se opera a partir da cultura.
Aqui podemos retomar o que Freud propõe a respeito da neutralização da pulsão de morte pela mediação de um órgão particular, no caso a musculatura. Ou seja, é a expulsão, a tentativa de expulsão do temor da morte assim como do desejo de morte.

5. Há outro excesso que vem na contramão da hiperatividade: a Apatia. O que tem a nos dizer sobre ela?
Encontro crianças e adultos cuja hiperatividade é uma forma de defesa, ou seja, a imperturbabilidade frente à dor física e psíquica, e que considero uma forma contemporânea de ataraxia. Uma defesa ao pensar, ao ler, ao escrever. O dito hiperativo é um apático frente ao que lhe diz respeito, às respostas que poderia vir a dar, às posições que poderia vir a ocupar. Está entregue ao pulsional, não se encontra nem na posição de resposta a uma demanda nem ao desejo. É um momento insensato, entregue ao movimento pelo movimento, cuja angústia se liga a que o movimento possa se interromper, e depois? O próximo movimento já tem de estar em ação antes que o anterior se interrompa. O risco presente é o de um ponto final, uma escansão, um espaço, o risco eminente é, sobretudo, o da produção de um significante.