Desejo e violência

Entrevista com Conceição Beltrão Fleig1 por Márcia Rosane Junges – Jornalista – MTB 9447 para a revista IHU do Instituto Humanitas Unisinos   1. Como o binômio desejo e violência se apresenta em crianças e em adolescentes? Para situar a questão no seu nascedouro podemos recorrer ao auxilio de Santo Agostinho em As confissões, quando relata o amargo olhar de inveja (amaru aspectu) que dirigiu a um outro bebê que estava sendo amamentado por sua ama. A inveja tem consequências sobre o outro, mas também sobre quem a dirige e pode possuir destinos diferentes, ou se mantém como uma força destrutiva ou se transforma em desejo, o que é a grande virada. A inveja de ver outro na posição que deveria ser minha é uma das manifestações primeiras que funda a fraternidade. A fraternidade tem sua face violenta que é a rivalidade e sobre qual Santo Agostinho tanto nos esclarece. Essa seria uma forma de violência, mas não a única, que é exercida entre iguais, os da mesma geração por exemplo. A violência, penso poder nomeá-la nesses dois sentidos, em direção ao outro e no retorno sobre si próprio sendo peculiar ao contemporâneo de cada período. Existem outras, mas me detenho na primordial. Inicialmente o conceito de desejo e de seus desdobramentos em psicanálise e que está presente ao longo da obra de Freud, diz respeito a uma contradição,...

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Hiperatividade

Entrevista com Conceição Beltrão Fleig realizada por Denise Cini para a Biblioteca Freudiana de Curitiba – setembro 2009 1. A primeira vez em que se falou em crianças hiperativas (hipercinéticas) foi em 1923. A hiperatividade seria uma nova forma de “sintoma” que apareceu a partir das mudanças que ocorreram na família, distanciando-a do modelo tradicional? Conforme Bergès, no livro O corpo na neurologia e na psicanálise, a primeira notícia de tal diagnóstico ocorre em 1923, após uma epidemia de gripe e encefalite (conhecida como gripe espanhola) que assolou a Europa e também a América, o Brasil, depois da Primeira Guerra mundial. O alemão Von Economo introduziu o termo ao se referir a adultos e crianças que apresentavam, como seqüelas da encefalite, comportamentos com desordem de movimentos, incapacidade para parar em um lugar, dificuldade de concentração, de memória e de aprendizagem. Ou seja, a síndrome das crianças hipercinéticas era específica do período após a encefalite. É um diagnóstico vinculado de saída a um perigo de morte. Considero absolutamente apropriado nomear a hiperatividade como um sintoma, mas não obrigatoriamente vinculado a uma estrutura em específico. Além disso, a partir da prática como psicanalista, e de nossa experiência em reparar nos detalhes, hiperativo já é um termo muito amplo na medida em que engloba vários fenômenos, como atenção, concentração etc. O paciente psicótico em surto, fenomenologicamente pode apresentar um quadro de hiperatividade...

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Relação entre o discurso do

paciente e os discursos sociais

  IHU ONLINE • WWW.UNISINOS.BR /IHU 5 DE JULHO DE 2004 Entrevista com Roland Chemama Cada palavra pronunciada transita sobre um fundo cultural, e nele intervém. Por isso o analista deve ter condições de relacionar o discurso do paciente com os vários discursos sociais. Se ele não for suficientemente culto, relativamente imune ao esfacelamento dos saberes e fechar-se nos limites de uma disciplina universitária, não conseguirá desvelar as questões que afloram, nem poderá oferecer a cura, a possibilidade do paciente tornar-se menos dependente e menos submisso ao Outro, a partir do qual ele se define. Dessa forma o psicanalista francês Roland Chemama aborda alguns dos desafios contemporâneos da psicanálise, em entrevista por e-mail ao IHU On-Line. Roland Chemama, integra, desde sua fundação, a Association Freudienne Internationale, que a partir de 2001 passou a chamar-se Association Lacanienne Internationale. O professor também foi membro da École Freudienne de Paris, fundada por Jacques Lacan, até sua dissolução. Coordenou a redação do Dictionnaire de la psychanalyse (Larousse, 1993 e 1998. Publicado no Brasil sob o título Dicionário de Psicanálise; tradução de Francisco Franke Settineri. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995) e, desde 1992, vem desenvolvendo seu trabalho junto a psicanalistas e suas instituições no Brasil. É autor também de La psychanalyse, textes essentiels (Larousse 1993), e Eléments lacaniens pour une psychanalyse au quotidien (Editions de l’Association freudienne internationale, 1994, também publicado em português com...

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As modificações na estrutura familiar

clássica não significam o fim da família

IHU On-Line, São Leopoldo, 8 de agosto de 2005 WWW.UNISINOS.BR/IHU Entrevista com Mario Fleig “Qual a função da família? Não seria a de estruturar novos sujeitos, fazendo a passagem da mera condição de cria humana pela inserção da linguagem e da fala, por um processo de humanização?”, pergunta o psicanalista Mario Fleig, professor dos cursos de graduação e pós-graduação em Filosofia e graduação em Psicologia da Unisinos, na entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Assim, pensando a família fora dos padrões tradicionais com que a que a sociedade se acostumou, Fleig afirma que as modificações que se apresentam não ameaçam a família. E completa: “As novas formas de organização familiar requerem novas formas de pensar o exercício da função materna e da função paterna, não mais simplesmente coladas aos destinos da função biológica”. Mario Fleig é graduado em Psicologia pela Unisinos e em Filosofia pela Faculdade de Filosofia Nossa Senhora Medianeira, mestre em Filosofia pela UFRGS com a dissertação Os esquemas horizontais em Ser e Tempo, doutor em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), com a tese O tempo é a força do ser – Lógica e temporalidade em Martin Heidegger, e pós-doutor pela Université de Paris XIII (Paris-Nord), França, em Ética e Psicanálise. IHU On-Line- No texto A tese do declínio da imago social do pai e o deslocamento da autoridade ,...

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Lacan e o Outro

  IHU ONLINE • WWW.UNISINOS.BR /IHU 5 DE JULHO DE 2004 Entrevista com Conceição Beltrão Fleig “A tendência é transformar a palavra individualidade em um palavrão, como algo indesejável”, opina a psicanalista Conceição Beltrão Fleig. Ela diz isso a propósito da contribuição da psicanálise para ajudar os sujeitos a viverem suas individualidades ao mesmo tempo que constroem uma sociedade. Desse modo, talvez seja possível unir o sujeito ao enunciado, divisão que se manifesta, por exemplo, quanto ao mercado, na dificuldade de encontrar “alguém” do outro lado do balcão e dele receber respostas educadas, em bom português. “Ali não há sujeito, não há outro, apenas um enunciado”, observa. Ela lembra que é fundamental o reconhecimento, pelos indivíduos, de um campo simbólico pré-existente ao relacionamento entre eles, permitindo que o outro seja compreendido como uma referência, e não como um espelho. Isso lhes asseguraria a singularidade necessária para enfrentar os efeitos da sociedade de massa e estabelecer a convivência necessária para “amar e trabalhar” que, na definição de Freud, podem viabilizar uma vida saudável. Conceição Beltrão Fleig é analista membro da Associação Lacaniana Internacional, com sede em Paris. Atualmente trabalha como psicanalista em consultório. A professora tem um artigo publicado no livro Imigração e Fundações. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 2000, do qual é uma das organizadoras. Além da formação permanente em Psicanálise pela Associação Lacaniana, Conceição Beltrão Fleig é especialista...

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