Sonia Maria Bley

“Não entendo como as pessoas podem estar juntas; o que faz as pessoas ficarem juntas… se ninguém tem o corpo perfeito? Eu sempre vejo defeitos, uma gordurinha aqui, outra ali… olho na rua: o quê aquele viu naquela ali para estarem juntos, eu nunca sei…”

Esse pequeno fragmento de uma fala, veiculada transferencialmente, toca de uma forma singular evidentemente, em algo direcionado pela histeria à clínica psicanalítica. Desde os primórdios da clínica, através da histeria, são exemplarmente endereçadas à escuta sombras, nódoas que resistem ao saber apaziguador.

Numa busca atual de mapear o corpo, cartografando-o numa idéia de corpo feminino, ou seja, nos endereçamentos às técnicas estéticas de embelezamento, rejuvenescimento e às academias de ginástica, na pretensão de atingir o que seria o corpo perfeito, algo desse corpo, pela histeria, escapa a essa possível cultura modelar.

As tentativas de modelagem, os emplacamentos (Schilderte) sintomáticos de base sugestiva, onde se agarra, ora mais, ora menos, não deixam o histérico seguro de quem seja no seu estatuto psicossexual. Então, como apreender o um detentor de uma pura especificidade masculina ou feminina? Por falta desse uno, nesse vazio, o histérico tenta capturá-lo como corpo. Mas o que possa ser esse corpo, colocou e continua colocando problemas à medicina, bem como à estética.

Ora, se a histeria foi dando a letra quanto ao sofrimento encontrado na clínica psicanalítica, já em seus primórdios, foi porque com Freud as queixas evidencivam um corpo não correspondente ao anatômico/fisiológico. Apresentava-se um oferecimento de “dar-se-a-ver”, onde na aparente paralisação/perturbação/dor, latejava algo que, dando-se a escutar, só seria enquanto ação, na visível paralisia. Essas bocas começaram a denunciar algo relativo a estruturação do seu lugar de falantes, pela interrogante suposição de um descompasso entre o lugar ocupado e aquele a ocupar.

O lugar reivindicado, denunciado, aparece, desde cada um dos casos dos “Estudos sobre a Histeria” (1985), fazendo pensar um corpo relativo ao de um sempre a nomear, do que seria próprio ao lugar, pela denúncia do sem lugar.

O escancaramento daquelas bocas escoava o sofrimento numa freqüente desafinação (Verstimmung) com a situação ou organização das relações. Nessas o corpo não circunscrito pelos discursos, dados de forma aceitável, insurgia apontando um estado de insatisfação reivindicante (Anspruch).

Seria, então, a histeria a matriz do sofrimento com o que não vai para o lugar? Isso que se mantém como insaciável ensinaria sobre uma subjugação a um movimento que é só aparente?

Freud constata que um mapeamento do corpo vai se dando, segundo aquilo que seriam as várias expulsões de representações incompatíveis, inconciliáveis (Unverträglichkeiten) com a tarefa de ação defensiva. Ele foi dando tratos à bola desse unverträglich, por vezes intuitivamente e entremeando fracassos como naqueles momentos em que entulhara a boca de Katharina com um saber prévio, ou tamponara os ouvidos, por ocasião de não deixar Frau Emmy von N. falar e, ainda quando tenta, mais tarde com Dora, designar a ela seu lugar. Por outro lado, prestou atenção na literalidade de falas que puderam desobstruir-se do isolamento e, como ferida exposta escancarar um conflito.

Os enodamentos de representações, aparecendo nos sintomas como meios artificiosamente restritos, direcionáveis ancoradouros convertidos da dor eram ruidosamente buscados. Freud os percebia não só como resposta passiva, mas como ação frente a um gozo insuportável que tenta escoar-se enquanto excesso. Gozo esse já testemunhado no momento em que a expressão fisionômica de Elisabeth von R., ao receber choques do aparelho de alta tensão, não correspondia a uma dor e sim a um prazer, gozo (Lust).

O corpo de palavras porta enigmas e na possibilidade de enlaçamento sintomático que arraste um traço identificatório ao ideal buscado, por exemplo do “corpo perfeito”, só pode se dar enquanto gozo não acessível diretamente. Gozo esse que, enquanto palavra, é deixado ao Outro como lugar do saber recalcado, num permanente estranho e inquieto retorno. No retorno sempre de uma queda do todo, do “perfeito”, o impossível aparece como efeito de estrutura.

A subjugação interrogada pelas falas, apontava um assujeitamento no enredo das relações com a linguagem e o que a partir dela se constitui como saber. Essa subjugação estrutura um lugar sempre por delinear-se ao sabor das irupções do retorno do recalcado.

As falas vinham marcadas, na sua maioria, por uma denegação (Verneinung), enquanto tentativa de ação ajustadamente defensiva. Na boca de Elisabeth von R. ela “não ia para o lugar”. “não podia sustentar-se/parar/ficar sozinha”. Em relação a paixão pelo cunhado: “não seria capaz de tal maldade”; “não é verdade”, “não pode ser”. Cäcilie M. expressava o “não ser capaz de dar um único passo à frente”; também dizia “não ter nada” em que se apoiar e, ainda, de “não estar à altura da situação”, pois temia não se encontrar na “posição certa” na companhia de estranhos. Frau Emmy dizia: “…não sou uma pessoa rejeitada…”, “eu não me permito temer” e assim por diante.

A histeria reatualiza a inesgotável nostalgia sintomática no ponto onde a perda foi marcada, ou seja, ali onde como efeito estrutural há a aceitação e submetimento, mesmo não pacífico e satisfeito, aos ditames da lei e da castração.

A perna de Elisabeth von R. gritava sua dor num mutismo, num sem voz, após não ter sido possível um pronunciar-se, declarar-se, expressar-se (Aussprache) ao e com o jovem com quem voltara de uma festa. Freud refere-se ao fato dessa perna ter sido, então, no tratamento, levada a (mitzusprechen) falar com, falar compartilhando. Ele insistia para que a persistente dor fosse embora falada (weggesprochen), ou seja, fosse indo embora ao ser falada. Se a dor fosse indo embora, falada, o nome, o traçado dessa perna de dor, essa letra rasgaria o silêncio calando o real, mostraria que o próprio dito é o ser. Ao mesmo tempo podemos pensar que se a dor fosse, muito embora falada, presentificaria também que “… o próprio do dizer é de ex-sistir em relação a qualquer dito que seja”. (Lacan, 1985, p.139)

Nisso temos que lidar com um impronunciável, que nos é imposto ao abrirmos a boca. Articulamos sempre na língua que habitamos uma mudez essencial a nos interditar enquanto sujeitos, por estarmos solicitados pelo dever de falar Outro. Daí a sensação de que não era bem isso que se queria dizer? No lugar onde a palavra não dá conta, nos vemos incapazes de nos pronunciarmos (uns aussprechen) de nos expressarmos a fundo. Estamos às voltas com o indizível (unaussprechbar), mesmo nos escorrendo pela linguagem, porque o lugar do qual se sustenta o sujeito é o que tornou possível o arqui-recalcamento (Urverdrängung) e esse permanece no impronunciável.

Com Lacan a tônica buscada em Freud desde esse início com a histeria, passando principalmente pelo paradigma do sonho, é que somos estruturados psiquicamente como efeito dos significantes.

A totalidade do que pretenderíamos dizer é fadada ao fracasso quando o significante mestre (S1) tenta apreender o objeto mas só apreende outro significante e entre os dois há a perda do que queria apreender. Essa perda que mantém o desejo é ligada a um fato de estrutura própria à linguagem, naquilo que ela própria não recobre. Posição essa que talvez Freud estaria adiantando no final do último de seus casos dos “Estudos”. Escreve ele: “A histeria faz disso certo, se para suas fortes inervações restabelece o sentido original das palavras. Sim, talvez é incorreto dizer, que ela cria a si tais sensações através da simbolização, ela talvez, definitivamente, não tenha tomado o uso da linguagem como modelo e sim bebe junto com ela da mesma fonte.” (p. 201)

Se a histeria extrai algo da mesma fonte que a linguagem é pelo sintoma que isso se faz corpo. Mas por que o sujeito histérico não diz, não se pronuncia naquilo que seus sintomas vêm inscrever no seu corpo? Por que não o diz, na articulação pela encenação cujo palco é seu corpo?

O corpo convertido na tentativa de escoar pelo sintoma o excedente de energia de um processo psíquico enodado, desviado e deslocado em seu afeto e valor, fora deixado descrever-se pelo método de abreação que implicou uma descarga (Entladung). No entanto esse esgotamento (Erledigung) logo foi dando mostras, a Freud, que se tratava de uma pretensa cura sintomática e “não casual”. Perseguia-se o recobrimento da coisa pela rede da linguagem, com a catarse, o que seria não suportar o impossível veiculado nas falas, nem ressituá-lo por elaboração.

Com Dora (1905), a questão transferencial, um tanto considerada, já nos Estudos, ou seja, por perpassar alguns momentos daquela clínica como pano de fundo, não fora lá desenvolvida enquanto dispositivo conceitual de importância central na direção daqueles tratamentos. A partir da transferência orquestrando o conjunto do tratamento de Dora que se pôde, então, pensar o que estava endereçado, ou seja, de onde e para que lugar algo se dirigia.

Apesar de mostrar-se sensível em sua lógica àquilo que falhava/falava, de que modalidade de recusa estava operando, foi no nachträglich (no depois) que Freud pôde pensar o desfecho fracassado de quando se precipita no jogo de Dora um dar a entender, sendo que o saber que com isso convocou se apresentou (nas pré-concepções dele sobre o destino da questão de Dora e o lugar da mulher). Esse saber por ter se presentificado foi tripudiado, resultando no abandono do tratamento.

Acentuando as inversões dialéticas possíveis na direção do tratamento de Dora, Lacan aponta que elas mostram o singular desse modo de estruturação. Ele tornou o discurso histérico transmissível através do matema, cuja escritura põe os elementos da estrutura em sua combinação.

Poderíamos perpassar os lugares do outro intersubjetivo, onde comumente figuram as queixas que ancoram falas, apontando a outra, o outro, os outros, como integrando um balê onde se dá o interjogo das identificações.

No entanto, é na esteira do significante mestre que a interrogação constante se mantém, num tempo mesmo em que há um empossá-lo no saber e o desapossá-lo na precisão da insatisfação.

Sendo o que causa o desejo um objeto perdido e não uma pessoa; esse então objeto a (invisível) é mantido no fantasma isento de subjetividade. É a manutenção do sujeito que constitui um limite para Dora à consumação do gozo. A pessoa Frau K., como objeto a porta a interrogação para Dora do que seria a própria feminilidade para ela. Essa portadora de mistério desdobra-se nos casos dos “Estudos”: na irmã, na mãe, na patroa, governanta, etc.

Na clínica cotidiana muitas situações se apresentam, nesta mesma sinfonia em que para, na sua maioria mulheres histéricas, o outro masculino entra no teatro como fantoche, que recobre o leque da referência ao desdém, dispersando a atenção como suposto objeto, quando a questão pela enunciação está encaminhada para outra direção. A produção de anteparo, dessa forma, ao objeto a implica a manutenção desse estado neurótico de assujeitamento de uma pessoa a outra, assumindo um caráter peculiar a cada sujeito histérico, na tentativa de reparo de uma carência.

A clínica recheia-se de exemplos nos quais muitas mulheres queixam-se de seus relacionamentos com o companheiro e, tanto silenciosamente (numa Kränkung, mortificação, adoecimento), quanto gritantemente o mantêm situado como esse anteparo. Estaria colocado no outro algum poder que a subjuga com o qual é solidária, ao mesmo tempo em que acusa uma impotência que atrai e desaponta, para dar estatuto funcional à insatisfação. Enquanto insatisfeita se protege do perigo de topar sem mediador com o objeto a. Essa questão vem mascarada pela necessidade de mantê-lo ali enquanto presença. As falas se desdobram como por exemplo: “…ele mente, me engana, mas preciso dele ali, por que não consigo me livrar dele, tenho medo de ficar sozinha”, “…a presença de um homem em casa traz respeito…ele só precisa estar ali do meu lado…”etc.

Assim também Dora se impôs sustentar o desejo do pai/do homem, favorecido quanto mais afortunado/impotente (vermögen), enquanto desejo dela mesma a não poder se realizar. É um meio de manter a reivindicação na crítica comum de que o outro, por exemplo, o companheiro, também não está à altura, justificando o freqüente devotar-se a corrigi-lo, na espera de que se aprume.

Se de algum modo se exclui do gozo fálico no que aparenta satisfazer o outro, há, na contrapartida um gozo Outro, na dimensão do não-toda fálica. Nesse campo Outro do real, a mulher não encontra o que seja “A Mulher”. Ali falta o lugar de onde pudesse buscar empossar sua voz no dizer-se. É já o fenômeno da vocalização que muitas vezes treme, balança na sua base. Algo, como o que Melman chama atenção no fato da voz das mulheres poder cobrir o campo que vai “…da queixa, apenas audível até o grito extraordinário”. (Melman, 2005, p.89)

Para Melman, passar pela voz implica invocar um certo profetismo do significante mestre, o que deixa o sujeito barrado acometido de uma mudez. Essa mudez vai tentar se fazer ouvir por esse teatro do qual fazem parte as perturbações na vocalização. Aliás de Anna O. à cantora Rosalie, dos gritos de Cäcilie M. aos de Frau Emmy von N. e da série de ruídos com a boca, gagueira e estalidos com a língua desta última, o que estaria ali querendo pronunciar-se aos ouvidos de outros?

Seria a análise possibilitadora de empossar no Outro um pai que não seria o gerador do S1, que por meio da voz emudece o sujeito, mas um pai, barrado, celebrador do lugar vazio?

Se dominado, emudecido e sujeito a esse significante um (S1), que de vazio se nomeia uno, tapa-se a crueza do que mantém nossa relação com o mundo que não é, em última instância, com um objeto, mas com a falta dele. A letra, objeto perdido, enquanto seu corpo material é uma letra causa do desejo. E ela, a letra, é de textura uma rachadura mínima no real, uma fenda para o não realizado, que dá corpo valorativo ao objeto possível de um gozo.

“…a letra reproduz, mas reproduz jamais o mesmo ser de saber” (Lacan, 1985, p. 131)

Referências Bibliográficas

FREUD Sigmund. Studien über Hysterie. (1895) Frankfurt-am-Main: S. Fischer Taschenbuch verlag, 1991

Bruchstück einer Hysterie-Analyse (1905) Frankfurt-am Main: S. Fischer Verlag, 1989

LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995

O Seminário – livro 20 Mais, Ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985

MELMAN, Charles. Novos Estudos Sobre o Inconsciente. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994

Novos Estudos Sobre a Histeria. Porto Alegre: Artes Médicas, 1985

Será que Podemos Dizer, com Lacan, que a Mulher é o Sintoma do Homem? Rio de Janeiro: Tempo Freudiano Associação Psicanalítica, 2005