Entrevista com Conceição Beltrão Fleig1
por Márcia Rosane Junges – Jornalista – MTB 9447
para a revista IHU do Instituto Humanitas Unisinos

 

1. Como o binômio desejo e violência se apresenta em crianças e em adolescentes?

Para situar a questão no seu nascedouro podemos recorrer ao auxilio de Santo Agostinho em As confissões, quando relata o amargo olhar de inveja (amaru aspectu) que dirigiu a um outro bebê que estava sendo amamentado por sua ama. A inveja tem consequências sobre o outro, mas também sobre quem a dirige e pode possuir destinos diferentes, ou se mantém como uma força destrutiva ou se transforma em desejo, o que é a grande virada. A inveja de ver outro na posição que deveria ser minha é uma das manifestações primeiras que funda a fraternidade. A fraternidade tem sua face violenta que é a rivalidade e sobre qual Santo Agostinho tanto nos esclarece. Essa seria uma forma de violência, mas não a única, que é exercida entre iguais, os da mesma geração por exemplo. A violência, penso poder nomeá-la nesses dois sentidos, em direção ao outro e no retorno sobre si próprio sendo peculiar ao contemporâneo de cada período. Existem outras, mas me detenho na primordial. Inicialmente o conceito de desejo e de seus desdobramentos em psicanálise e que está presente ao longo da obra de Freud, diz respeito a uma contradição, o desejo se funda em um paradoxo. Não podemos compará-lo a uma vontade ou a um querer, justamente porque nos escapa. No cotidiano costumamos dizer que se tem um desejo ou que “eu fiz o que desejava”. Dentro do rigor do conceito poder-se-ia dizer que se cumpriu uma vontade. Nos casos sobre histeria e nos casos de neurose obsessiva Freud situa o desejo de acordo com a estrutura psíquica. Vale a pena ler o famoso sonho descrito por Freud e que Lacan retomou chamando-o de “O sonho da bela açougueira”. No sonho ela queira dar um jantar, aparentemente estava aí seu desejo, mas no desdobramento da análise do sonho o desejo que se apresenta de fato era de que não pudesse dar o jantar, e ainda um outro desdobramento, que o seu desejo de dar o jantar se mantivesse em suspenso, não realizado. No que se refere às crianças, Freud se refere a sua filhinha Ana que havia sido privada de certos alimentos durante o dia e que durante o sono nomeia em sequência algumas frutas e entre essas, na cadeia do nome das frutas insere seu próprio nome, entre as frutas queridas que lhe haviam sido privadas pelo pai. Para concluir, o olhar amargo de inveja ele é captado, por exemplo, pelos pintores renascentistas, basta reparar no olhar enviesado que as crianças endereçam para aquele que está no colo. No caso, para o menino Jesus.

2. Qual é o laço que une desejo e violência nesses grupos? Por que irrompe a violência entre eles?

Em uma clínica para crianças e adolescentes de comunidades carentes, na qual recebi muitas crianças e adolescentes não-leitores que apresentavam quadros de violência, encontro a seguinte estrutura discursiva na fala de uma mulher (também com filho não-leitor). Ela diz que pede emprestado para a vizinha o filho pequeno para ir na sinaleira esmolar, e que na volta paga para a mãe um tanto pelo aluguel da criança. Esta mesma mulher, na seqüência desta fala, menciona um programa social de nosso governo, onde recebeu a instrução de que ela só terá direito ao dinheiro da bolsa família se trouxer o filho na escola. Entendido pela mãe: “empresta-me teu filho para meus objetivos e receberás dinheiro em troca”. Esta mãe assim considerava a exigência feita pelo Programa de Bolsa Família, ela o emprestava e com isso recebia o dinheiro. Não boto em questão a validade do programa nem a válida pressão feita aos pais para que estas crianças fiquem na escola e alimentadas ao invés de estarem nas ruas, o básico do básico em situação de tanta penúria. O que coloco em questão é o discurso, o mesmo em relação à posição da criança como não-sujeito. Morte em vida! Nos trabalhos sobre hiperatividade associado a impossibilidade de aprender a ler nos deparamos justamente com a angústia frente a morte que tem como efeito uma posição de violência da criança com relação a si mesma (o machucar-se, o colocar-se em perigo. Já encontrei casos que a automutilação chegava a ser confundida com maus tratos por parte de um adulto) e nos adolescentes a resposta vem sobre o outro, mas também sobre o próprio corpo. Quando nada é suposto à criança, quando não lhe é atribuída vida e tratada como um objeto, ela está privada da segunda vida, a vida simbólica. E não seria isso precisamente estar endereçada à segunda morte? Temos uma importante bibliografia a este respeito nos seminários do Dr. Jean Bergè.

3. Acredita que a delinqüência juvenil está ligada a uma violência originária do desejo? Por quê?

Estou me perguntando porque falar em violência originária do desejo, e é isto sim, quanto ao desejo não temos saída, no máximo o contornamos por meio dos sintomas, dos atos falhos, dos sonhos ou dos chistes. Uma das facetas é justamente o imperativo de cumpri-lo. E já que a questão se dirige à delinqüência juvenil, cabe retomar as voltas possíveis do sadismo, como por exemplo, quando este se volta contra si próprio ou seja, o sadismo da instância do supereu. E para tal, nos referirmos aos criminosos por sentimento de culpa, cujo crime não gera culpa, mas é a culpa que leva ao crime, este que já seria o segundo crime motivado pela angústia de um crime primeiro que seria justamente o não cumprimento do mandato superegóico. Tenho procurado examinar a delinquência sob um outro ângulo, que é justamente o da angústia. Considero que Sade tocou no mais fundo da alma humana ao falar do princípio da ameaça perpétua: conforme Klossowski «o mal que pode irromper a cada instante, embora não irrompa jamais. Esta possibilidade do mal que não irrompe jamais, mas que pode irromper a cada instante, é a angústia perpétua de Sade.» e a solução para essa angústia seria : «Numa palavra, é preciso fazer reinar o mal de uma vez por todas no mundo, a fim de que ele próprio destrua e que o espírito de Sade encontre afinal a paz. » Talvez aí pudéssemos dizer que, para os personagens de Sade, o mal irrompe. Encontramos aí a angústia pelo mal que não acontece de todo, o que viria a suspender a repetição e que também não se acaba, não se esgota. Temos então a ameaça permanente da possibilidade do mal como o motor para a própria execução do sadismo, ou seja, a tentativa de esgotar o mal. E o que significaria esgotar o mal, por que seria preciso? Volto ao ponto que já abordei sobre as crianças e adolescentes jurados de morte por um discurso, por uma formação discursiva contemporânea, uma jura de morte que não se esgota.

4. O que podemos entender por “função paterna”, recuperando um conceito de Frege? E qual é a importância da função paterna na humanização da criança (sua entrada na linguagem e socialização)?

Tomemos inicialmente a questão visceral, o filho vem das entranhas da mãe, é parte dela, não lhe é um estranho (salvo nos casos de psicose materna em que o corpo do filho é tido e visto como um objeto perseguidor. A consequência destas alucinações povoou a unidade do antigo manicômio judiciário, mães que haviam matado seus bebês). Entre ambos nenhuma separação inicial. É um terceiro que vem solicitar algo a um ou a outro e desta forma separa (aí temos uma função que nem sempre é exercida pelo pai biológico, mas atenção a função precisa ser exercida por alguém de carne e osso, não serve para este fim o trabalho da mãe ou similares). Mas se nos detemos mais especificamente no pai, que é o caso clássico, para ele o filho é um estranho ele precisa adotar a criança, é sempre um pai adotivo nos dois sentidos. Ele adota o filho daquela mulher, mas sob a condição de ser adotado como pai pela mulher para seu filho (dela) e a mãe transmite isto à criança. Parece complicado? Pode ser sutil, mas tem muito homem que nunca foi adotado como pai. Para a mãe o filho nunca é ele (pronome pessoal). A relação se dá no eu-tu. É o pai que introduz o “ele”, ele o filho, ela a criança. A função paterna introduz a terceira pessoa, ele não é eu nem tu, é outro. Em casos de psicose no qual falha a entrada do terceiro, falha a função e se mantém a unidade eu-tu, podemos ouvir a criança se referir a si mesma como ele/ela. Ou então, a fulana (quando se refere a si mesma, ausência do eu). Este ele/ela ao se referir a si é uma forma de introduzir de alguma forma um outro na relação com a mãe.

5. Nesse sentido, como o declínio da autoridade paterna, a sua dilapidação, pode ser relacionado à violência juvenil?

Não me arriscaria a estabelecer uma relação de causa e efeito tão estreita, talvez o futuro venha a comprovar estar relação, mas considero que no momento não podemos dizer. Tenho observado que a autoridade paterna vem se transformando em algo similar com uma corrida de revezamento. Para ilustrar conto rapidamente o cotidiano de um menininho de cinco anos, alegre, tem seus amiguinhos, é muito amado pela família, brinca, passeia, fala com riqueza de vocabulário, amável. No final de semana vai para a casa do pai e é recebido por este, pela madrasta e o recém-nascido maninho. No domingo a mãe e o padrasto passam para buscá-lo, e entre o portão da casa e o carro é passado o bastão. A mãe viaja e lá vai ele para a casa dos avós, é passado o bastão. Todos são educados convivem bem, dizem estar vivendo esta nova experiência muito bem. O avô organiza viagem com o menino e nem sombra de perguntar aos pais se pode ou não. O avô está inteiramente autorizado é só uma questão de organização. O menininho já aprendeu a arte do bom viver. Da casa do pai ou da casa da mãe nada conta quando está na outra casa, é extremamente discreto, muito sábio. Mas a avó ouve nele “um suspiro sentido” e se pergunta sobre o que se passa na cabeça do netinho. Vejam que a autoridade paterna se dilui, a mãe é um centro de referência, mas no que concerne à administração dos tempos e dos movimentos no cotidiano. Nova organização familiar? Sim. Autoridade paterna? Existe, mas partilhada, administrada e ninguém parece estar incomodado. É muito similar a várias outras crianças que tem mais de uma casa, mais de um quarto. No revesamento da autoridade se passa o bastão.

6. Como essa nova economia psíquica pode ser relacionada com a nova economia mundializada?

Andam de braços dados e será uma das questões prementes discutidas no Colóquio promovido pelo Instituto Humanitas, Escola de Estudos Psicanalíticos, Association Lacanienne Internationale e a Fundação do Ministério Público do Rio Grande do Sul. Lacan introduziu quatro discursos possíveis, o do amo, o da histérica, o do analista e o chamado discurso do capitalista. Creio que seja com estes quatro que vamos nos haver no Colóquio no que consiste a ética é da psicanálise. A mundialização é uma das conseqüências e já sofremos disto em nosso cotidiano, mas como esta não é minha seara vou a sua incidência na clínica. Volto ao menino saudável, que pertence a uma família acolhedora, mas cujo único senão “é o suspiro sentido” que a avó atenta e transitivista interpreta quando o ouve “suspirar fundo”. O menino como tantas outras crianças é um migrante, dentro do conceito de um ir e voltar. Ele migra semanalmente para novas casas. Qual é seu endereço, qual é seu quarto, qual é seu cachorrinho (tem um no pai, um nos avós). Os adolescentes migram, mesmo que já em Goethe as viagens formem a juventude, os adolescentes migram para o estrangeiro no aprendizado de uma nova língua, na busca de aventuras de trabalho, as famílias migram, trabalho, estudos. Todos migram via internet, quantas vidas? E quem ainda não está precisa ser incluído! E nestas migrações se dá o enriquecimento de experiências, conhecimento, lazer, novas línguas, novos costumes, uma abertura para habitar o mundo, que é fascinante. De tudo isto me fica uma pergunta que vem pela clínica. Por que cada vez menos crianças sabem interpretar o que lêem e muito pior na escrita? Por que se dá a confluência de casos de violência juvenil, e automutilação na infância associados a quadros de angústia em crianças e adolescentes não-leitores? Temos novas formas de escrita? O que se apresenta neste sintoma referente à nossa contemporaneidade em que muitos adolescentes e crianças não conseguem entrar na lógica do escrito, mas são brilhantes com os ícones?

7. Gostaria de acrescentar algum aspecto não questionado?

Obrigada Márcia, me botaste a pensar e trabalhar por meio de tuas perguntas.

1 Psicanalista, psicóloga
Membro da Escola de Estudos Psicanalíticos – Brasil
Analista membro da Association Lacanienne International
Especialista em Psicologia Clínica e Psicologia Escolar – CRP 07
Organizadora do livro Adolescente, sexo e morte. Porto Alegre: CMC, 2009 e autora do texto
O escudo fálico do trabalho e da política na adolescente.
Le gamin qui a brûlé, in La culture des surdoués. Paris: Erès, 2006. [O menino que queimou
in A cultura dos superdotados].
Textos diversos no site www.freudlacan.com.br e no site www.freud-lacan.com.br