O nascimento da “Traumdeutung” observado a partir da correspondência de Freud com Fliess

Maria Cristina Fogaça É instigante observar como o interesse pelos sonhos aparece cedo na correspondência de Freud com Fliess. Uma intuição que Freud não abandona e que se permite exercitar em suas correspondências e conversações com o amigo. Em certos momentos, parece mesmo que o enigma dos sonhos o sustenta nos reveses da clínica e na elaboração da sua teoria. Em setembro de 1897, ao aperceber-se dos equívocos de algumas de suas construções teóricas, escreve que não acredita mais em sua neurótica. E com a constatação dos reveses de sua clínica, com a perda substancial de clientes, não se envergonha nem se deprime, ao contrário, orgulha-se de ter ido tão fundo em seu trabalho e ainda assim ser capaz de criticá-lo e interpreta isso como a possibilidade de avançar rumo a novos conhecimentos. Nesse momento, então, escreve: “É uma pena que não se possa ganhar a vida com a interpretação dos sonhos”. Seu sofrimento na gestação deste trabalho aparece pungente e mesmo comovente em algumas cartas. Há momentos em que produz com abundância e com alegria e outros em que se afunda num mal estar, que por vezes chega a atacar seu físico, por não conseguir superar os impasses teóricos que vão surgindo. Há outros, no entanto, que emerge triunfante do mar cinzento das incertezas, demonstrando sua euforia por sentir-se um desbravador de mundos nunca “d’antes” explorados. As cartas...

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