Contribuições psicanalíticas às

argumentações contra a eugenia positiva

  Bernardo Mantovani   A era da engenharia genética, como se propõe chamar nosso tempo, carrega em si muitas promessas que, por seu notável alcance tecnológico, aumentam significativamente as esperanças de se poder tratar e prevenir uma série de doenças e outras desordens que vêm afligindo o homem na sua condição humana. A manipulação genética que objetiva a possibilidade de reparar e/ou substituir genes defeituosos ainda em nível germinal como em óvulos, espermatozoides ou embriões, pode evitar que determinadas patologias, mapeadas no genoma dos pais, venham se manifestar em uma vida que ainda está por vir. A referida técnica de intervenção genética, com objetivos precisos de tratamento e prevenção em níveis extremamente precoces, é situada por Habermas (2004) como uma eugenia negativa, ou seja, a possibilidade de negativar, terapeuticamente falando, elementos potencialmente patogênicos presentes em determinada estrutura genética. Conforme o filósofo, tal modalidade eugênica é facilmente defensável moralmente, não gerando grandes dilemas no campo da ética. A problemática moral se apresenta de forma escancarada quando entra em cena a versão positivada da eugenia, que propõe o uso de tais tecnologias com objetivos de melhoramento/aperfeiçoamento, assim como intervir de modo a escolher as características físicas, cognitivas, etc. dos seres humanos ainda não concebidos. Nos moldes de uma eugenia liberal, portanto, se faz plenamente possível que um indivíduo, quando decidido por ter um filho, possa escolher a cor dos seus olhos,...

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Do impronunciável na histeria

Sonia Maria Bley “Não entendo como as pessoas podem estar juntas; o que faz as pessoas ficarem juntas… se ninguém tem o corpo perfeito? Eu sempre vejo defeitos, uma gordurinha aqui, outra ali… olho na rua: o quê aquele viu naquela ali para estarem juntos, eu nunca sei…” Esse pequeno fragmento de uma fala, veiculada transferencialmente, toca de uma forma singular evidentemente, em algo direcionado pela histeria à clínica psicanalítica. Desde os primórdios da clínica, através da histeria, são exemplarmente endereçadas à escuta sombras, nódoas que resistem ao saber apaziguador. Numa busca atual de mapear o corpo, cartografando-o numa idéia de corpo feminino, ou seja, nos endereçamentos às técnicas estéticas de embelezamento, rejuvenescimento e às academias de ginástica, na pretensão de atingir o que seria o corpo perfeito, algo desse corpo, pela histeria, escapa a essa possível cultura modelar. As tentativas de modelagem, os emplacamentos (Schilderte) sintomáticos de base sugestiva, onde se agarra, ora mais, ora menos, não deixam o histérico seguro de quem seja no seu estatuto psicossexual. Então, como apreender o um detentor de uma pura especificidade masculina ou feminina? Por falta desse uno, nesse vazio, o histérico tenta capturá-lo como corpo. Mas o que possa ser esse corpo, colocou e continua colocando problemas à medicina, bem como à estética. Ora, se a histeria foi dando a letra quanto ao sofrimento encontrado na clínica psicanalítica, já em...

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O pagamento na clínica

Conceição Beltrão Fleig A partir do convite da comissão e coordenação do Falando nisso … para que dirigisse a vocês algumas reflexões a respeito deste tema comecei a pensar por onde abordá-lo e, fruto disto, recordei que desde as primeiras discussões para a criação da Clínica de Psicologia da Unijui a questão do pagamento já estava presente. Nas conversas com a Professora Tânia M. de Souza retomamos pontos desta discussão e na seqüência, com a Professora Cristian Gilles, foi criada a oportunidade para a retomada de uma já antiga, mas não menos proveitosa interlocução. Portanto, mesmo antes de ter começado a ser escrito, este texto já estava me trabalhando, inclusive desde o tempo em que tive a rica experiência de coordenar a CPU. Por “cavados de ofício” vou me ater exclusivamente àquilo que é pertinente à clínica psicanalítica, isto é, fundada no conceito de transferência e que opera a partir das formações do inconsciente. Vou iniciar com duas situações: uma delas é trabalhada por Freud no caso do paciente que ficou conhecido como o Homem dos Ratos e cujo relato se encontra no texto de 1909 intitulado “Notas sobre um caso de neurose obsessiva” (Bemerkungen über einen Fall von Zwangsneurose); a outra situação refere-se a um sonho de Freud que se encontra nas Correspondências de Freud a Fliess, relatado no período de sua análise. Antes de passar aos dois...

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Masoquismo

Nair Macena de Oliveira Uma Criança é Espancada (Freud, 1919) Chama a atenção de Freud, a frequência com que seus pacientes neuróticos relatam produzir fantasias do tipo: uma criança é espancada. Essa situação imaginária é acompanhada de excitação sexual genital, canalizada à masturbação. Considera tratar-se de uma fantasia masoquista. Não poderia ser denominada de sádica, pois quem bate não é a criança que desenvolve a fantasia. A identidade de quem bate, inicialmente, é obscura. Não se trata de uma criança, mas de um adulto. Mais tarde, esse adulto indeterminado torna-se reconhecível como o pai. Freud desdobra essa fantasia em três tempos: Primeiro Tempo da Fantasia O primeiro tempo é representado pela frase: “O meu pai está batendo na criança.” O amor dos pais tem que ser compartilhado com outras crianças à volta, mais velhas ou mais novas, e, por isso, elas são repelidas com toda energia selvagem característica da vida emocional nessa idade. A idéia de o pai batendo nessa odiosa criança é, portanto, agradável, independente de ter sido realmente visto agindo assim. Significa: “O meu pai está batendo na criança que eu odeio.” Segundo Tempo da Fantasia Entre o primeiro e o segundo tempo, ocorrem profundas transformações. A pessoa que bate continua a ser o pai, mas a criança que está sendo batida é a que produz a fantasia. O segundo tempo é representado pela frase: “Estou sendo...

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O tratamento de pacientes fronteiriços:

entendimento e técnica

Sônia Maria Perozzo Noll O tema escolhido para este trabalho é o tratamento de pacientes fronteiriços, cujo interesse surgiu a partir de um caso clínico.O trabalho reúne conceitos teóricos de Freud, através de alguns textos que podem ajudar na compreensão do assunto, dentre eles: O Narcisismo (1914); Luto e Melancolia (1917), O Ego e o Id (1923) e Inibição, Sintoma e Angústia (1926). Foram incluídos também outros autores como Abraham, que em 1924 escreve “Notas sobre a Psicogênese da Melancolia” e também Melanie Klein – “Sobre a Teoria de Ansiedade e Culpa”, de 1948. O nosso trabalho clínico, pela sua própria natureza, apresenta situações difíceis e impasses que nos causam dúvidas e questionamentos sobre procedimentos técnicos. Encontramos pacientes com fortes barreiras, quase inacessíveis e que dificultam o vínculo terapêutico. Estes pacientes são acometidos de vazios, de angústias e, nesse sentido, o entendimento da técnica é fundamental. Assim, os textos de Bion, H.Rosenfeld, Steiner, Joel Zac e outros citados serão de grande importância para a compreensão da patologia de pacientes fronteiriços. Falar de pacientes regressivos implica uma compreensão de que tipo de pacientes estamos falando. O neurótico? o psicótico? o que acontece com eles? Roland Chemama,[1] no seu “Dicionário de Psicanálise” faz uma referência ao termo estado-limite:“Caso limítrofe que se definiria, no plano nosológico e estrutural, como intermediário ou “na fronteira” entre uma estrutura neurótica e uma estrutura psicótica”. (p.63)...

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