IHU On-Line, São Leopoldo
8 de maio de 2006
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Entrevista com Mario Fleig

O psicanalista Mario Fleig é professor do curso de pós-graduação em Filosofia da Unisinos e membro da Associação Lacaniana Internacional. Graduado em Psicologia pela Unisinos e em Filosofia pela Faculdade de Filosofia Nossa Senhora Medianeira, é mestre em Filosofia pela UFRGS, com a dissertação Os esquemas horizontais em Ser e Tempo, doutor em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), com a tese O tempo é a força do ser – Lógica e temporalidade em Martin Heidegger, e pós-doutor pela Université de Paris XIII (Paris-Nord), França, em Ética e Psicanálise.

Em entrevista por e-mail à IHU On-Line, Fleig menciona que, talvez, “a obra freudiana tenha sido a mais importante resposta aos efeitos colaterais (ou seja, aqueles produzidos na vida psíquica e social), produzidos pela modernidade. Freud teria encontrado uma chave de leitura e uma terapêutica para o mal-estar do sujeito na civilização e talvez alguma indicação para a civilização européia, especificamente moderna, e ainda hoje válido, com as ampliações e modificações próprias, na pós-moderna”. Ao remexer “na lixeira da ciência de sua época” Freud “de lá retirou muito material que havia sido descartado. Esse material, que, em seu conjunto, denominou de formações do inconsciente, foi reintroduzido em valor de dado científico: os sonhos, os lapsos, os chistes, os sintomas, a sexualidade, a neurose, a psicose, a perversão etc”. A edição 150 da IHU On-Line, de 8 de agosto de 2005, entrevistou Fleig sob o título. As modificações da estrutura familiar clássica não significam o fim da família.

IHU On-Line – Qual foi o impacto das descobertas de Freud? Como elas foram recebidas pela comunidade científica européia?
Mario Fleig – O maior impacto das descobertas de Freud é aquele que continua a acontecer a cada dia para quem se lançar na aventura de fazer uma análise, movido, certamente, pelo peso insuportável de seu sintoma, e então tem experiências de descobertas, releituras de sua história, enfim, defronta-se com a verdade de seu sintoma e do desejo que seu destino lhe reservou. Freud mesmo, no término de sua vida, escreveu o inacabado Esboço de psicanálise (1938), no qual afirma que somente quem experimentou os achados da psicanálise em si mesmo e em outros está em condições de formar um juízo próprio sobre ela. E esses achados, assegura-nos Freud, estão sempre relacionados com dois temas: sexualidade e morte.
Então, perguntamos, Freud é um cientista? É um pensador da cultura? É um poeta? Certamente não cabe encerrá-lo na categoria de pensador nem de um dos maiores pensadores do século XX. Ele está mais para o lado do cientista, mas muito estranho, pois se propõe fazer ciência de um objeto até então reservado aos literatos e aos artistas. Esta combinação entre o cientista (Freud foi um dos importantes signatários, ao lado de outros como E. Mach , A. Einstein , D. Hilbert , F. Klein , da convocação para a fundação de uma “Sociedade para a Filosofia Positivista”, em 1912, também publicada no volume 3 de sua revista de psicanálise) e o literato (recebeu o Prêmio Goethe de Literatura) não deixa de causar, até os dias de hoje, uma estranheza. E é essa estranheza que já apareceu nas primeiras comunicações de suas descobertas psicanalíticas, especialmente quando retornou a Viena após seu período de estudos com Charcot, em Paris (em torno deste, encontramos jovens médicos que também se dedicavam à literatura, como é o caso de G. de Maupassant , que escreve contos nos quais se encontram ecos das formas de loucura que apareciam na pesquisa médica da época).

A inauguração de um novo discurso
Existe uma história muito engraçada que Freud relata em suas correspondências. Uma vez fora convidado a dar uma conferência sobre suas descobertas na sociedade de filosofia de Viena e assim que deu uma resposta positiva, recebeu uma recomendação: deveria dividir sua exposição em duas partes. Na primeira, com livre acesso a todos interessados, deveria se restringir a temas leves e na segunda parte, após as senhoras terem se retirado, poderia então falar sobre suas descobertas no campo da sexualidade. Evidentemente, diante de tais restrições, ele se recusou falar.
Com a psicanálise, Freud inaugura um novo discurso, que longe de acrescentar um novo capítulo ao domínio das ciências, introduz uma ruptura radical nas ciências ditas humanas. E a questão da sexualidade está no centro do escândalo do que propõe. Poderíamos dizer que Freud remexeu na lixeira da ciência de sua época e de lá retirou muito material que havia sido descartado. Esse material, que em seu conjunto denominou de formações do inconsciente, foi reintroduzido em valor de dado científico: os sonhos, os lapsos, os chistes, os sintomas, a sexualidade, a neurose, a psicose, a perversão etc. Até hoje perdura a resistência em aceitar seu discurso, que implica tomar as formações do inconsciente com base na fala de cada sujeito em seu endereçamento, sem reduzi-los a uma explicação generalizadora. Sua obra capital, A interpretação dos sonhos, de início foi um fracasso editorial. E parece que sua ciência sempre foi melhor recebida pelos artistas e literatos. Um exemplo disso foi o entusiasmo de A. Breton , criador do Surrealismo, que escreveu o livro Os vasos comunicantes, tomando essa expressão de Freud.

IHU On-Line – O que essas descobertas significaram quanto a mudança no entendimento da psique humana?
Mario Fleig – A descoberta do “complexo de Édipo” se encontra no centro da novidade freudiana, e ela se dá a si mesmo, quando Freud começa a analisar sistematicamente seus sonhos, a partir de julho de 1895, e elege seu amigo W. Fliess como intérprete deles. Sua primeira formulação aparece na carta a Fliess de 15 de outubro de 1897: “Acorreu-me ao espírito uma única idéia, de valor geral. Encontrei em mim, como em todo lugar, sentimentos de amor para com minha mãe e de ciúme para com meu pai, sentimentos que são, acho eu, comuns a todas as crianças pequenas, mesmo quando seu aparecimento não é tão precoce como nas crianças que se tornaram histéricas (de uma maneira análoga à da “romantização” da origem, nos paranóicos, heróis e fundadores de religiões).
Se isso for assim, pode-se compreender, apesar de todas as objeções racionais que se opõem à hipótese de uma fatalidade inexorável, o efeito surpreendente do Édipo rei. Também se pode compreender por que todos os dramas mais recentes do destino deveriam fracassar miseravelmente… mas a lenda grega percebeu uma compulsão que todos reconhecem, pois todos a sentiram. Cada ouvinte foi, um dia, em germe, em imaginação, um Édipo, e espanta-se diante da realização de seu sonho, transposta para a realidade, estremecendo conforme o tamanho do recalcamento que separa seu estado infantil de seu estado atual”.
O escândalo maior do novo discurso freudiano pareceria, à primeira vista, consistir na descoberta da importância da sexualidade e do complexo de Édipo na vida psíquica. Hoje, contudo, podemos afirmar que mais importante do que sua nova teoria da sexualidade, foi a invenção de uma nova clínica das patologias psíquicas: a passagem da clássica clínica desenvolvida pela psiquiatria e pela neurologia (clínica da observação, da descrição e da classificação das doenças mentais, ou seja, a clínica do olhar) para a clínica da fala, da escuta e da leitura. Freud, por exemplo, foi pioneiro em isolar um quadro clínico estritamente psíquico, a neurose obsessiva. E essa nova clínica tem como instrumento principal de trabalho a situação de fala endereçada ao psicanalista, no eixo da qual se faz o trabalho de escuta e da leitura, da mesma forma como se decifra um criptograma, nos esclarece Freud em suas três grandes obras que desdobram a tese de que o inconsciente se estrutura como uma linguagem: A interpretação dos sonhos, A psicopatologia cotidiana, O chiste e sua relação com o inconsciente.

IHU On-Line – Qual é a recepção de Freud hoje? Qual é sua contribuição para compreender a sociedade pós-moderna e seu profundo mal-estar?
Mario Fleig – Hoje, como no início da divulgação de suas descobertas e de seu novo método terapêutico, a rejeição da Psicanálise continua presente. O anúncio de sua morte se faz a cada novo ano. Muitos acreditam que o texto freudiano já não serve para mais nada e não mereceria ser lido. Contudo, podemos supor que todo texto, se for fundador de uma nova descoberta, contém os elementos que permitem sua releitura atualizada. Assim, por exemplo, os poemas homéricos ou os diálogos platônicos não cessam de produzir indicações para enfrentarmos os problemas de hoje. Talvez mais do que isso, a obra freudiana tenha sido a mais importante resposta aos efeitos colaterais (ou seja, aqueles produzidos na vida psíquica e social) produzidos pela modernidade. Freud teria encontrado uma chave de leitura e uma terapêutica para o mal-estar do sujeito na civilização e talvez alguma indicação para a civilização européia, especificamente moderna, e ainda hoje válido, com as ampliações e modificações próprias, na pós-moderna.

Contribuições freudianas
A pertinência da contribuição freudiana para as novas patologias psíquicas já foi apontada por J. Lacan, que reconheceu a tese freudiana do declínio da função paterna em nossa cultura como absolutamente acertada. Quando a referência à instância terceira (representada pelo pai e seus correlatos) deixa de ter prevalência, surgem as condições para o aparecimento, tanto da desagregação do tecido social, quanto da desestrutura psíquica. Em seu lugar, podemos ver o surgimento de uma nova economia psíquica, segundo a expressão de Charles Melman , na qual ocorre um deslocamento do lugar da autoridade. Se antes ela estava localizada nos representantes do pai, agora quem passa a comandar os sujeitos é o objeto a ser consumido. Isso determina o surgimento de novos sintomas e igualmente novas formas clínicas.
As novas patologias parecem tomar duas direções: a primeira diz respeito à facilitação para o surgimento de irrupções de paranóia social e individual, correlativas ao enfraquecimento dos operadores da função do terceiro. Dito de outro modo, presenciamos um incremento de relações duais, sem a intermediação do terceiro simbólico, ou seja, dispensando a mediação da lei. O efeito imediato da paranóia, tanto social quanto individual, é a instalação da relação “ou eu, ou ele”, ou seja, o conflito e jogo de forças feito diretamente com o semelhante, sem nenhuma possibilidade de haver o recurso a uma instância mediadora, enfim, sem nenhuma lei possível, a não ser a violência da força. O sujeito se encontra à mercê do arbítrio da força do semelhante. A segunda aparece no incremento dos laços sociais organizados em torno da instrumentalização do outro, cujo modo mais flagrante na atualidade se constata na organização das trocas econômicas, regidas pela “lei de sempre levar vantagem”, deflagrador, provavelmente, da espiral da corrupção. Essa forma de patologia psíquica já havia sido descrita por Freud com a denominação de perversão.
Como efeitos subjetivos dessas duas configurações, encontramos, apenas para citar duas, as patologias do humor (euforia desmedida e incremento no índice de depressões, em qualquer faixa etária), as patologias da oralidade (anorexia e bulimia; toxicomanias). Talvez o traço comum às novas formas clínicas, ou seja, as novas patologias psíquicas, seja a progressiva desresponsabilização. E isso também pode nos ajudar a entender a razão pela qual as terapêuticas que não requerem a participação do próprio sujeito tenham uma maior aceitação. Em geral, por exemplo, é mais fácil tomar um comprimido que prometa a liberação da depressão do que ter que se expor e falar do sofrimento resultante de perdas e decepções.

IHU On-Line – Acredita que a clínica psicanalítica exerce um papel político e social que pode ajudar a repensar as estruturas de nossa civilização?
Mario Fleig – A prática da psicanálise, se bem fundamentada, não é compatível com um regime político que impeça o exercício das liberdades conquistadas na modernidade. Freud foi capaz de fazer uma interpretação crítica muito precoce das grandes formações políticas calcadas no arbítrio, na força e no autoritarismo do século XX. Talvez foi graças à sua interpretação dos fenômenos de massas, ao dissecar os mecanismos psíquicos das identificações que estão na base da formação das multidões, que pôde fazer uma crítica precoce tanto do comunismo quanto do nazismo. Enfim, a elucidação da lógica interna dos fenômenos de massa, do autoritarismo, da paranóia social e do laço social perverso, assim como de seu efeitos subjetivos, determina que a psicanálise possa contribuir para a promoção de condições de uma vida melhor na polis, exercendo assim uma função política significativa.
Conforme nos alerta Melman no recente seminário proferido em Curibiba , dois traços marcam as mutações culturais em curso: a exclusão, ou mesmo a forclusão do outro, determinando a promoção de relações duais e a promoção do gozo objetal (consumo do objeto) em detrimento do gozo fálico (próprio do erótico e do sexual). Esses dois traços são corolários do declínio da função paterna, e determinam as questões clínicas emergentes: a depressão generalizada, as toxicomanias crescentes, a instrumentalização do sujeito e a desorganização da vetorização do sujeito, incidindo no incremento da psicose. Trata-se então da pulverização dos referenciais, que rapidamente são substituídos por outros, jogando os indivíduos em um destino de errância. O efeito visível disso se dá no esfacelamento do tecido social, cuja expressão mais direta se encontra na violência que penetra o cotidiano.

IHU On-Line – Quais são as grandes tensões entre as correntes clínicas hoje?
Mario Fleig – Existem várias leituras do legado freudiano, que vai desde aqueles que se consideram pós-freudianos, ou seja, que já não mais se reconhecem em seu texto até os que ainda se dizem freudianos, reunindo-se em torno de diferentes interpretações do texto. Dos freudianos encontramos os seguidores da “psicologia do ego”, direção promovida pela filha de Freud, Anna Freud , que encontrou uma forte discordância em Melanie Klein , que se manteve próxima do núcleo duro da teoria e clínica do inconsciente.
Os desdobramentos dessas duas escolas são múltiplos. De nossa parte, seguimos a proposta de um retorno a Freud realizada por Lacan, que jamais deixou de reconhecer sua filiação ao mestre vienense. Lacan se propôs retornar ao gérmen da descoberta de Freud, que requer uma clínica que não impeça o acesso à outra cena, ou seja, à cena fantasmática inconsciente de onde cada um está ordenado. E esse acesso se dá pelo modo como o analista escuta e lê o criptograma que se desenha na fala do analisante, permitindo uma interpretação (que não se confunda com nenhuma hermenêutica) do enigma que o sintoma singular contém.

IHU On-Line – Que novas práticas têm surgido na psicanálise e quais das mais antigas devem mudar?
Mario Fleig – A clínica psicanalítica, se bem concebida como Freud a propõe, procura estar atenta para não impor aos fatos clínicos uma carta forçada dos conceitos. Pelo contrário, deve permitir que o fato clínico interrogue a cada vez o conceito, colocando-o à prova e exigindo sua reformulação caso não se confirme no caso em pauta. Isso determina, então, que o surgimento de novas patologias, decorrentes das mutações em curso na atualidade, requeira inovações conceituais correspondentes. A investigação das depressões na atualidade, por exemplo, que não podem estar desconectadas do advento do discurso capitalista, como o propôs Lacan (discurso no qual é veiculada uma promessa de que nada é impossível, bastando se deixar governar pelo objeto de consumo). O correto diagnóstico dos novos fenômenos sociais e seus efeitos subjetivos é condição para a formulação de novas abordagens clínicas.
Freud acreditava que o método psicanalítico que propunha somente poderia ser utilizado para o tratamento das neuroses e em indivíduos adultos. Anna Freud e Melanie Klein ampliaram de maneira inovadora o tratamento de crianças. Contudo, para a primeira, a psicanálise com crianças seria muito diferente da psicanálise com adultos, dado que supunha que a criança se recusaria a “associar” e a comunicar tudo o que viria à mente. Além disso, ela pensava que a criança ainda estaria demasiado ocupada com as relações reais com seus pais, o que impediria a transferência em análise e até mesmo poderia causar prejuízo para o psiquismo da criança, em formação. Em função disso, ela propunha que o analista de crianças deveria misturar à análise uma ação educativa. Percebe-se que essas teses tiveram um efeito negativo sobre a psicanálise da criança, mesmo que nem tudo seja falso em algumas das dificuldades que ela assinala.

Interpretações
Já Melanie Klein, que se instala em Londres, em 1927, desenvolve uma conceituação própria do legado freudiano e funda uma escola, entrando em conflitos violentos com A. Freud, que lhe censura as concepções de objeto, supereu, Édipo e fantasmas originários, além de sua posição clínica sobre a possível transferência no tratamento da criança, tornando desnecessário todo o trabalho com os pais. O que de fato acontece é que M. Klein funda efetivamente a psicanálise com crianças e determina avanços clínicos extraordinários, redimensionando igualmente a psicanálise com adultos e lançando conceitos para a interpretação da psicose.
É na direção do possível tratamento psicanalítico da psicose que se situa uma das grandes contribuições de J. Lacan, em oposição à afirmação de Freud. Lacan, determinado por sua formação na clássica escola francesa de psiquiatria, realiza uma frutifica aproximação entre esta e a clínica psicanalítica, e isola o mecanismo específico da produção da psicose: a forclusão do significante paterno (nome do pai) no discurso que a mãe sustenta para seu filho. Desse modo, postula as hipóteses de como se estrutura o sujeito, sempre a partir do discurso que o Outro lhe endereça, discurso esse sustentado pelo semelhante que opera a função materna. À luz destes achados, Lacan introduz importantes inovações na clínica psicanalítica, ampliando as possibilidades na clínica das psicoses, das perversões e das neuroses, assim como viabilizando futuros avanços na clínica com crianças. Por exemplo, até pouco tempo era corrente a afirmação de que a psicanálise não tinha nenhuma eficácia no tratamento do assim denominado autismo (que segundo Gabriel Balbo , não passa de uma melancolia infantil).
Ora, hoje já temos avanços extraordinários na clínica destas patologias graves da primeira infância, que somente se tornaram possíveis graças ao diagnóstico precoce da ruptura do jogo de posições entre a mãe e o bebê. Ou seja, antes de ser reduzido a uma mera falha no suporte biológico, o autismo estaria antes vinculado a uma ausência ou pobreza de hipóteses que a mãe faz sobre seu bebê, empurrando este para uma posição melancólica, talvez em espelho à posição materna, e da qual se defende com as formações que se tornaram clássicas (rigidez corporal, não conexão e até mesmo ausência de olhar, esteriotipias etc.). O que importa é que atualmente há uma clínica psicanalítica do autismo, com resultados promissores, dependendo da precocidade da intervenção. Se até pouco tempo a escola inglesa de tratamento do autismo propunha o diagnóstico a partir de dois anos e meio, já muito tarde para reverter o quadro de maneira a não deixar seqüelas, hoje, com os trabalhos desenvolvidos na Associação Lacaniana, sob a liderança de Charles Melman, já se pode fazer o diagnóstico a partir das primeiras semanas de vida e realizar tratamento com resultados promissores. A clínica dos transtornos precoces na relação mãe-bebê, na perspectiva psicanalítica, apresenta inovações recentes e importantes, que não podem ser ignoradas.

IHU On-Line – O neoliberalismo pode ser considerado uma patologia que repercute no corpo do sujeito pós-moderno? Por quê?
Mario Fleig – O neoliberalismo, com seus corolários de globalização e de promessa de gozo sem limites e para todos, produz efeitos na própria economia e igualmente efeitos subjetivos importantes. Na realidade se trata de mutações nas formas de trocas entre os seres humanos. Ora, desde sempre sabemos que aquilo que organiza o social, e dentro deste, os sujeitos, é o sistema de trocas, que nunca se restringe apenas às trocas de bens, ou seja, as trocas econômicas. Classicamente, como nos ensinaram os sociólogos e antropólogos, os povos se organizam em torno de três formas relacionadas de trocas: troca de bens (economia), trocas de mulheres (relações de parentesco) e troca de palavras (lei simbólica). Podemos supor que a primazia da troca de bens, desconectada das duas outras, produz efeitos desorganizadores dos discursos sociais, ou seja, provoca patologias no laço social, com efeitos psíquicos salientes. Em razão disso, podemos levantar a hipótese de que a condição pós-moderna tem uma nova economia psíquica correlata, que poderia ser caracterizada em uma frase: o imperativo de gozar a qualquer preço, não importa qual, mesmo que seja ao preço do outro.

IHU On-Line – A cura pela palavra prenuncia a queda da visão teocêntrica de mundo. Qual é a posição da psicanálise na sociedade antropocêntrica em que vivemos?
Mario Fleig – Freud contribui e acompanhou de perto o surgimento de quatro grandes inovações do final do século XIX: a descoberta do poder anestésico da cocaína, precursor dos psicofármacos; o nascimento da neurologia; o uso científico do poder da sugestão; e o tratamento psicanalítico. Ele abandonou a cocaína pelo amor (casou-se com Martha), deixando os méritos das descobertas subseqüentes para seus colegas; tomou progressiva distância da neurologia (nunca quis retomar seu importante esboço escrito no final de 1895 – Projeto para uma psicologia científica); abandonou o uso da hipnose como técnica de tratamento psíquico (Freud teria feito fortuna se tivesse se dedicado a elaborar uma psicologia de auto-ajuda, visto que chegou decifrar a lógica da sugestão); em contrapartida, dedicou-se ao mais demorado e mais difícil: o tratamento pela fala do analisante.
Esta escolha de Freud indica que nunca aceitou submeter-se às leis locais (estaria seria a posição tomada pelo nazismo, que obedeciam apenas as leis da raça pura, recusando qualquer princípio do direito situado acima de cada povo), o que seria cair em uma posição antropocêntrica (entendida aqui pelo princípio de que o homem seria a medida de todas as coisas, das que são enquanto são e das que não são enquanto não são, como enunciou Protágoras ). Pelo contrário, requer a mediação da fala na relação com o semelhante é contar com a operação da lei organiza a circulação e a troca. Assim poderíamos interpretar a postulação de Freud de que todos os problemas dos seres humanos têm uma relação com o pai. Isso não impedia Freud de ser uma crítica contundente das religiões.
Lacan e a categoria do Outro
Talvez Lacan tenha nos ajudado a esclarecer esta questão, lembrando que a crítica freudiana se endereça à religião, não tendo efetivamente se ocupado da teologia. Uma das formulações originais de Lacan é a categoria do Outro, que designa um lugar vazio, mas também potencialmente todo elemento da linguagem que possa se inserir na enunciação e dar a ouvir o que diz respeito a uma outra coisa, ao inconsciente. Ora, isso é uma leitura da estrutura formal da mais genuína teologia trinitária de Santo Agostinho . A psicanálise freudiana, calcada na ciência moderna, promove a crítica desta, na medida que ela opera a exclusão do sujeito da enunciação de seu campo (a subjetividade perturba o bom funcionamento da ciência). Por estranho que pareça, a psicanálise é uma ciência moderna que propõe a reintrodução do sujeito da enunciação no cerne de seu procedimento. Ora, nas práticas sociais vigentes na modernidade, sempre foram as grandes tradições religiosas sempre mantiveram o exercício da fala engajada, apostando no compromisso da palavra empenhada. E é precisamente desse elemento nada científico dessas tradições que Freud faz uso em sua descoberta. Por isso podemos afirmar que Freud, como o reconhece Lacan, reintroduz no campo da ciência o sujeito da enunciação, que dali havia sido banido.

Ernst Mach (1838-1916): físico e filósofo austríaco. Suas obras filosóficas e científicas exerceram profunda influência no pensamento do século XX. Seus primeiros livros contém os fundamentos de uma nova teoria filosófica, o empirocriticismo. Defendeu uma concepção positivista: nenhuma proposição das ciências naturais é admissível se não for possível verificá-la empiricamente. (Nota da IHU On-Line)
Albert Einstein (1879-1955): físico alemão naturalizado americano. Premiado com o Nobel de Física em 1921, é famoso por ser autor das teorias especial e geral da relatividade e por suas idéias sobre a natureza corpuscular da luz. É provavelmente o físico mais conhecido do século XX.: Sobre ele, confira a edição nº 135 da revista IHU On-Line, sob o título Einstein. 100 anos depois do Annus Mirabilis. A publicação está disponível no sítio do Instituto Humanitas Unisinos (IHU), endereço www.unisinos.br/ihu. A TV Unisinos produziu, a pedido do IHU, um vídeo de 15 minutos em função do Simpósio Terra Habitável, ocorrido de 16 a 19 de maio de 2005, em homenagem ao cientista alemão, do qual o professor Carlos Alberto dos Santos participou, concedendo uma entrevista. (Nota da IHU On-Line)
David Hilbert (1862-1943): matemático alemão freqüentemente considerado como um dos maiores matemáticos do século XX, no mesmo nível de Henri Poincaré. (Nota da IHU On-Line)
F. Klein (1849-1925): matemático alemão, conhecido por seu trabalho na teoria de grupos, teoria das funções e geometria não-euclidiana, bem como das conexões entre geometria e teoria de grupos. (Nota da IHU On-Line)
Henry René Albert Guy de Maupassant (1850-1893): escritor e poeta francês com predileção para situações psicológicas e de crítica social com técnica naturalista. Além de romances e peças de teatro, deixou 300 contos escritos. (Nota da IHU On-Line)
André Breton: criador do movimento artísitico e literário conhecido como Surrealismo, surgido na França, no início do século XX. Em 1924, André Breton publica o Primeiro Manifesto Surrealista. A sua pretenção é conseguir a escrita automática, o fluxo do subconsciente liberado de todas as pressões sociais e culturais. A influência da psicoanálise e das obras de Freud é evidente, e na sua base reside a idéia de conseguir mudar a sociedade. Para iso, a escrita deve ser pura, refletindo unicamente aquilo que pensamos, sem correções nem retificações impostas pela “autocensura” que todos exercemos. (Nota da IHU On-Line)
Charles Melman: psicanalista francês, aluno de Lacan. Estará na Unisinos em 2007, como conferencista de abertura do Simpósio Internacional sobre o futuro da autonomia. É membro fundador da Association Freudienne Internationale e diretor de ensino na antiga École Freudienne de Paris. Escreveu dezenas de livros. Confira nesta edição a entrevista exclusiva Uma nova economia psíquica, concedida por Melman à IHU On-Line. (Nota da IHU On-Line)
Charles Melman. Novas formas clínicas no início do terceiro milênio. Porto Alegre, CMC, 2003. (Nota do entrevistado)
Anna Freud (1895-1982): psicanalista, filha caçula de Sigmund Freud. Destacou-se particularmente no campo do tratamento de crianças e do desenvolvimento psicológico. Dentre suas obras, destacam-se O tratamento psicanalítico de crianças e Infância normal e patológica. (Nota da IHU On-Line)
Melanie Klein (1882-1960): psicanalista austríaca, conhecida por suas atividades de psicanálise de crianças, muitas vezes criticando as idéias de Anna Freud. Uma de suas obras mais famosas é A psicanálise da criança. (Nota da IHU On-Line)
Gabriel Balbo e Jean Bergès. Psicose, autismo e falha cognitiva na criança.Porto Alegre, CMC, 2003. (Nota do entrevistado)
Protágoras de Abdera (480 a. C. – 410 a. C.): filósofo nascido em Abdera, foi quem cunhou a frase “o homem é a medida de todas as coisas”, tendo como base para isso o pensamento de Heráclito. Assim como Sócrates, Protágoras foi acusado de ateísmo (tendo inclusive livros seus queimados em praça pública), motivo pelo qual fugiu de Atenas, estabelecendo-se na Sicília, onde morreu aos setenta anos. Um dos diálogos platônicos tem como título Protágoras, onde é exposto um diálogo de Sócrates com o Sofista. (Nota da IHU On-Line)